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  Título
A paisagem urbana e o não pertencimento no cinema de Chantal Akerman
Autor
Larissa Veloso Assunção
Resumo Expandido
Cada vez mais se faz necessário o estudo e a reflexão de filmes realizados por mulheres. Este trabalho, portanto, se volta ao cinema de Chantal Akerman, cineasta da Bélgica e pioneira no cinema experimental de seu país. Este estudo pretende pensar as relações com o espaço da cidade em seus filmes Notícias de casa (1977) e Os encontros de Anna (1978).



A família de Akerman é de origem judia. Sua mãe, Natalia Akerman, foi sobrevivente do campo de concentração nazista de Auschwitz, para o qual foi levada durante o regime ditatorial, em meio à perseguição dos judeus. Natalia fugiu da Polônia, local em que nasceu, para a Bélgica. Passou a vida em exílio e nunca mais retornou a seu país natal. A figura da mãe influencia fortemente a obra de Akerman e, nesse sentido, a sensação de não se sentir em casa em lugar algum é algo que atravessa seu cinema como um todo.



Em sua filmografia, a paisagem urbana possui um papel fundamental: ela não funciona apenas como cenário para as ações, mas é um elemento que se insere de forma ativa nos filmes. Assim, este trabalho se volta para a forma como se dá, nesses dois filmes, a relação com os espaços urbanos, relação essa marcada pela constante sensação de não pertencimento. Para isso, podemos pensar os conceitos de paisagem autônoma, de Lefebvre (2011), bem como o de espaço e lugar, de Tuan (1983).



Em Notícias de casa, Chantal filma a cidade de Nova York dos anos 70 e narra em voz over a leitura das cartas que sua mãe a envia nesse período. “A ensaísta escreve sobre si com imagens através do espaço da rua, como se houvesse uma interseção entre o seu eu e aquela cidade. Um ‘eu’ que é uma condição passageira” (HORA, 2016, p. 93). O filme não traz à cena qualquer personagem, nem mesmo Akerman aparece na imagem. A Nova York do filme é por vezes uma paisagem esvaziada da presença humana, ou então uma presença apenas passageira, errante. A relação com a cidade evidencia certo distanciamento: Akerman não pertence àquele lugar, filma-o sempre à distância, em enquadramentos fixos, dando a ver apenas esses espaços transitórios e as pessoas de passagem: “a cidade de Nova York é mostrada sempre a uma distância constante” (VEIGA, 2010, p. 74).



Os encontros de Anna, embora seja uma ficção, possui certa dimensão autobiográfica. Anna é uma cineasta que viaja pelo Leste Europeu para distribuir seu filme. Ela constantemente se desloca de um lugar a outro, entre viagens de trem e hospedagens em hotéis. Há uma errância em sua trajetória, marcada pela transitoriedade e pelo caráter passageiro de suas estadias. Os espaços filmados são as estações de metrô, as ruas da cidade. Locais de passagem, transitórios, fugazes, o que Augé (2008) define como não-lugares, característicos do que ele chama de supermodernidade. Tal efemeridade também se revela nas relações com as pessoas. Vez ou outra ela encontra alguém, seja na estação, no trem ou nos quartos de hotéis, mas são apenas encontros, passagens, não há criação ou estreitamento de vínculos.



Em ambos os filmes há a marca da passagem, do não pertencimento. “É como modo de inscrição maior do invisível que o cinema privilegia a cidade. O invisível: (...) o que passou, o que não para de passar, (...) o fluxo temporal que faz de toda cidade um trançado de todos os tempos: passagem” (COMOLLI, 2008, p. 180). Quando se fala da experiência do indivíduo no espaço urbano, essa relação é muitas vezes atravessada pelo sentimento de um vagar pelas ruas, de um perder-se na multidão. Uma espécie de sujeito desconectado desse espaço. A cidade “traduz essa ideia de desenraizamento, perda de identidade. Seja em razão de um uso obsessivo de terrenos vagos (...), seja em razão da cor da paisagem, (...) da multidão, estamos sempre ao lado de cidades de trânsito, de personagens de passagem” (BENFATTI, 2005, p. 90). Nos dois filmes de Akerman, as imagens da cidade evidenciam essa sensação de não pertencimento com relação à paisagem urbana, o que constitui o foco de estudo deste trabalho.
Bibliografia

AUGÉ, Marc. Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. São Paulo: Papirus Editora, 2008.



BENFATTI, Denio Munia. Imagens de cidade, imagens de cinema. Ocolum Ensaios, n. 3, 2005.



COMOLLI, Jean-Louis. A cidade filmada. In: Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



HORA, Tatiana. Ensaiar a si mesmo: autorretrato e multidão em News from home e Lost book found. Doc On-line, n. 19, p. 92-108, mar, 2016.



LEFEBVRE, Martin. On Landscape in Narrative Film. Canadian Journal of Film Studies, 2011.



MARGULIES, Ivone. Nada acontece: o cotidiano hiper-realista de Chantal Akerman. São Paulo: Edusp, 2016.



TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983.



VEIGA, Roberta. Quantos quadros cabem no enquadramento de uma janela? DEVIRES-Cinema e Humanidades, v. 7, n. 1, p. 70-93, 2010.