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  Título
Mulheres em luta e em cena
Autor
Geisa Rodrigues
Resumo Expandido
Em meio ao cenário político contemporâneo, pós impeachment da primeira presidente mulher brasileira e todos os retrocessos e arbitrariedades que colocaram o corpo da mulher em pauta a partir da implantação do novo governo, a luta das mulheres emerge como um dos principais eixos de articulação e reivindicação política. Neste cenário, inúmeros materiais audiovisuais têm sido produzidos e difundidos tanto para efeito de registro, como disseminação das lutas travadas nas ruas e no cotidiano das mulheres. Esta produção audiovisual “midiativista” tem como característica um redimensionamento do papel político do corpo da mulher, em que a exposição e a performance promovem uma manipulação produtiva da potência política dos corpos femininos. Levanta-se aqui a hipótese de que tais materiais talvez estejam inaugurando um estilo (midiativista?) de produção de audiovisual. Este formato tem como principal característica trazer para as figurações de feminino que se colocam em cena uma dimensão protagonista. Trata-se de obras em que as mulheres assumem um “lugar de fala” no campo político que lhes foi negado, por meio de sequências de imagens em que há uma valorização dos afetos e dos corpos femininos postos em cena.

Para efeito de análise, foram selecionados dois vídeos desenvolvidos em 2017: Marcha Mundo de mulheres por direitos 2017 – Catarinas e Retrospectiva feminista de 2017- Mídia Ninja. Há diferentes formatos de materiais audiovisuais ligados aos movimentos sociais e aos ativismos contemporâneos sendo produzidos e difundidos, mas este tipo específico de material foi escolhido por conta do resultado estético final apresentado como alternativa política de ocupação, a saber: a articulação de influências de diferentes formatos que se entrecruzam – arte contemporânea, narrativa jornalística, documentário, canto, poesia e performance, etc. -, e a narrativa centrada exclusivamente no protagonismo feminino. Há que se considerar também a capacidade de disseminação de tais vídeos. Trata-se de um material divulgado em encontros, palestras, eventos políticos, redes sociais e grupos de watsapp e, portanto, com alto potencial de disseminação.

Além da análise dos elementos discursivos e estéticos articulados, pretende-se trazer para o debate, nesta comunicação, a questão da representação da forma como foi problematizada por Judith Butler em “Problemas de gênero”. Segundo a autora, a representação como afirmação não dá conta das questões políticas que envolvem o feminino, na medida em que só se estende ao que é reconhecido como sujeito (legitimado e normatizado). Butler assume que não há como evitarmos completamente o campo da representação, mas sugere “uma genealogia crítica de suas próprias práticas de legitimação”. Assim, convém indagar de que forma obras que se propõem a desnaturalizar e movimentar o que as estruturas naturalizam e imobilizam podem ser bem sucedidas em sua proposta de ruptura política com a dominação masculina.

Apesar de algumas divergências com o pensamento de Butler, o trabalho de Rosi Braidotti também servirá como referência para a análise e a reflexão aqui propostas, em particular o conceito de nomadismo desenvolvido pela autora. Inspirada no pensamento Deleuziano, Braidotti aponta o nomadismo como uma forma eficaz de resistência na contemporaneidade. Para além da concepção espacial e geográfica do termo, o nomadismo a que se refere é um tipo de consciência crítica que resiste a uma normatização, a lugares estabelecidos e formas fixas de comportamento. O sujeito nômade é visto como uma forma de resistência aos microfascismos a que somos submetidos, na lógica atual de poder. Em particular ao proclamar a potência de experiências estéticas capazes de abandonar categorias de representação, promover rupturas de formas discursivas canônicas e produzir novos formatos de inserção do desejo, por meio de um nomadismo de corpo. Tal concepção permite uma compreensão dos tipos de efeitos que os vídeos mencionados podem desenvolver.
Bibliografia

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

BRAIDOTTI, Rosi. Diferença, diversidade e subjetividade Nômade. (trad. Roberta Barbosa). Revistalabrys, estudos feministas número 1-2, julho/ dezembro 2002 http://www. unb. br/ih/his/gefem

_______________. Affirming the afirmative: on nomadic affectivity, Rhizomes. 11/1, fall2005/spring 2006. Disponível em http://www.rhizomes.net/issue11/braidotti.html

HAMBURGER, Esther. A expansão do feminino no espaço público. IN: Estudos feministas, 2007. P. 153-175.

LAURETIS, Tecnologias do gênero. In HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Tendências e Impasses: O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

LOURO, Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade / Guacira Lopes Louro (Org.); tradução: Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

RIBEIRO. Djamila. O que é lugar de fala. Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017.