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  Título
A máquina de escrever como objeto metonímico da escrita
Autor
Maria Castanho Caú
Resumo Expandido
Em diversos dos filmes que tratam do processo criativo ou do ofício da literatura, a máquina de escrever ganha o status de objeto privilegiado, representando a materialização da escrita enquanto ato e sendo o instrumento de trabalho mais frequentemente associado ao personagem do escritor. De fato, a imagem desse instrumento se liga de maneira muito mais íntima à escrita do que utensílios como caneta (e mesmo pena e tinteiro) ou computador — talvez porque seu uso seja mais restrito, já que uma caneta pode ser manejada para desenhar, e é difícil calcular o número de funções facilmente desempenhadas por um computador.



A força imagética do aparelho, uma geringonça visualmente interessante e imediatamente reconhecível, reforça a leitura metonímica que perdura no cinema e funde inteiramente a máquina de escrever como objeto físico e real e a literatura como processo cotidiano. A cristalização do emblema explica, pelo menos parcialmente, a manutenção desse equipamento nas narrativas que transcorrem (muito) após a popularização do computador. Uma outra razão para essa permanência pode ser encontrada no dinamismo proporcionado pelo aparato, com suas teclas e mecanismos pressupondo uma variedade de movimentos possíveis para o operador, um verdadeiro balé da escrita. Por fim, a máquina de escrever pressupõe a materialidade radical do texto — com as eventuais correções à mão assegurando um movimento a mais na coreografia da escrita — conectando corporalmente autor e obra, objeto palpável mesmo durante o processo de composição.



No contexto dessas aparições tardias do aparelho e indo mais além, alguns filmes dotam a máquina de escrever de poderes mágicos particulares, em especial a capacidade de transformar o texto escrito em realidade concreta. Esse é o caso de Mais estranho que a ficção (Marc Forster, 2006) e Ruby Sparks – a namorada perfeita (Jonathan Dayton & Valerie Faris, 2012), em que autores reclusos, anacrônicos e extremamente apegados ao seu principal instrumento de trabalho acabam por ser confrontados com a materialização dos romances que estão em processo de compor, viabilizada por poderes sobrenaturais e inexplicáveis invocados pelo aparelho.



Isso posto, pretende-se analisar a mística da máquina de escrever no cinema em suas aparições não como um utensílio prosaico, mas como peça a incorporar características transcendentes e extranaturais. Articularemos essas ocorrências para investigar a forma como tal objeto se liga à representação cinematográfica do processo literário (e de seu viés misterioso ou limitado do ponto de vista do dinamismo visual) e é definidor das relações e características particulares e arquetípicas do personagem escritor. A intenção é melhor compreender as inter-relações entre o cinema e a literatura a partir da escrita enquanto atividade organizadora da trama e enquanto ato posto em cena (e aqui tomamos por base o volume organizado por Judith Buchanan, The Writer on Film: Screening Literary Authorship).
Bibliografia

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AUSTER, Paul; MESSER, Sam. A história da minha máquina de escrever. Trad. José Vieira de Lima. Lisboa: Asa Editores, 2006.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

BUCHANAN, Judith (org.). The Writer on Film: Screening Literary Authorship. London: Palgrave Macmillan, 2013.

ELLIOT, Kamilla. Novels, Films and the Word/ Image Wars. In: Stam, R. & Raengo, A. (orgs.). A Companion to Literature and Film. Malden: Blackwell Publishing, 2006.

FIGUEIREDO, Vera Lúcia Follain de. Narrativas migrantes: literatura, roteiro e cinema. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio/ 7Letras, 2010.

SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Trad. Carlos Felipe Moisés. Petrópolis: Vozes, 2015.

WOOLF, Virgina. Um teto todo seu. Trad.: Bia Nunes de Sousa. São Paulo: Tordesilhas, 2014.