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  Título
“Por Trás dos Escudos”: A violência do Estado e a posição do Cinema
Autor
Sylvia Beatriz Bezerra Furtado
Resumo Expandido
“Por trás dos Escudos”, do pernambucano, Marcelo Pedroso, coloca em cena a face mais violenta do Estado brasileiro, aquela que responde com armas as manifestações populares. Em meio às lutas sociais, o Estado de Exceção não respeita qualquer direito de expressão. Os métodos do Batalhão de Choque da Polícia Militar são explicitados: há uma guerra onde a corporação está no front da batalha e não mede seus movimentos para por fim a qualquer tipo de organização das ruas. A polícia brasileira, a que mais mata e mais morre no mundo, é servil a lógica do poder. Há dois lados nessa guerra. A questão, no entanto, é que Marcelo Pedroso, militante de esquerda, optou por colocar sua câmara atrás dos escudos. No entanto, a tentativa de tornar visível o que se passa nesse lado obscuro e cruel, resulta num filme que não é confortável para ninguém. O gesto do cineasta expõe sua própria fragilidade diante das imagens. Não há diálogo com o inimigo. As imagens sempre estão em uma posição.

Segundo Jean-Louis Comolli, filmar o inimigo é de alguma forma se colocar do lado dele e compartilhar a cena com ele. Comolli operou nesse campo ao realizar um filme sobre Le Pen, o líder da Frente Nacional, da extrema-direita francesa. A Frente Nacional, seus quadros, seus militantes, estavam no centro de seus interesses nas batalhas políticas. Filmar o inimigo nunca deixou de ser um grande risco. Há preços a pagar. Em “Por Trás dos Escudos”, um dos preços mais altos foi cobrado no Festival de Brasília e no DocCachoeira. A militância cobrou caro e não aceitou a fragilidade de alguns momentos do filme como uma exposição do que significa habitar um campo minado. A unidade policial treinada para dispersar multidões e atuar na repressão não deixou de fora o próprio cinema. Ao acompanhar algumas operações de rotina e treinamentos no batalhão, o filme deixa nas imagens os efeitos da aproximação com o Estado de Exceção e, mesmo buscando formas de não se deixar capturar pelos encontros realizados no interior da corporação, há sempre um desvio de posição.

O risco, frente ao que aparece como inescapável, é sempre colocar o documentário como expressão de uma verdade possível. Ao se posicionar e ao posicionar a câmera no espaço cênico das ruas em confronto com a polícia, o descontrole é um dado. Quem mais se encontra em meio ao que dali decorre é o próprio processo fílmico, o desafio de manter uma distância e a cobrança de quem fez um pacto de filmar com o inimigo. O documentário vai se abrindo aos perigos dessa posição. Se filme se fez por atrever-se a saltar em direção ao abismo, supondo poder deixar que o próprio inimigo se despisse diante da câmera, como ocorre em algumas cenas, há momentos em que o documentário põe em questão o seu próprio lugar de fala. Diante da violência sobre corpos aprisionados passados em revista e a indescritível cena de agachamento e desnudamento dos presos, é impossível ficar imune. A perversão da violência contamina, mata.

O filme de Marcelo Pedroso é inapreciável, incômodo. Coloca o cinema como testemunha de sua própria angústia frente ao que é inominável, a depreciação dos corpos, a

perversão da violência e põe o cinema em meio as atrocidades de um Estado Inimigo.
Bibliografia

Camolli, Jean-Louis, Ver, Poder. UFMG, Belo Horizonte, 2008.

Didi-Huberman, G. Quando as Imagens Tomam Posição, UFMG, Belo Horizonte, 2006.

Leandro, Anita. O tremor das imagens: Notas sobre cinema militante. Devires, Belo Horizonte, V. 7, N. 2, P. 98-117, JUL/DEZ 2010.

Machado, Patrícia. Imagens que restam: a tomada, a busca dos arquivos, o documentário e a elaboração de memórias da ditadura militar brasileira. Tese Comunicação e Cultura UFRJ,

2016.

Gonçalves, Pablo, Qual é a ética diante das imagens violentas e perversas? Revista Cinética, 17 de outubro, 2017.