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  Título
Tinha sangue por todo lado. Imagem artifício em Mate-me por Favor.
Autor
TAINA XAVIER PEREIRA HUHOLD
Resumo Expandido
Mate-me, por favor (2015) é o longa-metragem de estreia da diretora Anita Rocha da Silveira. No filme destaca-se o uso de um sistema cromático anti-naturalista que refere-se a questões de gênero e sexualidade que parecem superficialmente abordados pelo ato fílmico, tal como apontado por Pedro Henrique Ferreira que, apesar de refutar as condenações do “exibicionismo formal” na crítica de Rodrigo Fonseca, afirma em seu texto na revista Cinética que o filme não discute plenamente seus temas. Já o tratamento dado aos interiores planifica o espaço e conduz a uma imagem cujo aspecto visual soma-se ao esquema cromático para apresentar uma adolescente de 15 anos moradora da Barra da Tijuca que vê seu mundo de aparente ordenamento ser perturbado por assassinatos misteriosos que fascinam e perturbam o que seria uma ordem natural do desejo.

O curtas-metragens Handebol e Os Mortos-Vivos realizados em 2010 e 2012 ressoam muito fortemente no longa inaugural de Anita. Do primeiro, vale destacar a experiência estética de problematização da transparência da imagem nas sequências em que se revela deliberadamente que os sets de interior (que representariam a casa de uma das personagens) estão sendo filmados em ambientes da megastore de decoração Etna. Tal procedimento também parece relacionar-se à crescente aproximação da vida “real” contemporânea com as encenações identitárias e ambiências efêmeras, características das artes audiovisuais. Já em Os Mortos-Vivos o tema da sexualidade adolescente imbricada com a morte leva à impossibilidade de continuidade das relações amorosas, elaborado esteticamente através de um flerte com artifícios da ficção científica (desaparecimentos misteriosos e portais espaço-temporais).

Ao optar, no longa-metragem, por procedimentos estéticos como o tratamento sistêmico e anti-naturalista dado à cor, juntamente com o uso dos enquadramentos frontais (também experimentado em Handebol) que intensificam a planaridade da imagem, a realizadora, através de um efeito de artifício desestabilizador de códigos baseados na representação, incorre em procedimentos de criação de atmosferas e emanação de afeto da/na imagem, afastando-se de um embate discursivo com seus temas. As pesquisas de India Mara Martins vêm apontando para estratégias de constituição de atmosferas a partir do trabalho da direção de arte audiovisual (MARTINS: 2017, 87). Tal como ocorre no filme analisado, a potência da imagem se deve à atmosfera plástica que, conforme definição de Inês Gil “diz respeito à forma da imagem fílmica, e aos elementos que constituem seu espaço plástico” (GIL: 2005, 142), construída em conjunto com a direção de fotografia.

A paleta de cores do filme, bastante reduzida, é composta pelos matizes azul, vermelho e pelo resultado da mistura destes em pigmento: o roxo. Um jogo de saturação e dessaturação faz com que o azul claro e o rosa (vermelho dessaturado) sejam cores bastante presentes na imagem, já o vermelho em sua saturação máxima aparece somente em forma de um sangue que jorra da imagem, nem sempre relacionado a acontecimentos objetivos da narrativa. Sabe-se que “a percepção da cor é o mais emocional dos elementos específicos do processo visual” (DONDIS: 2007, 69) e no caso de Mate-me por favor, é justamente a ausência da discussão dos temas que amplifica tal potencial. É a experiência frente a um ordenamento cromático e espacial baseado no artifício que perturba a harmonia aparente dos códigos estabelecidos para a sexualidade de “meninos” e “meninas”, bem como a aparente segurança da reclusão em belos apartamentos e condomínios. Mostrando-nos que estas crenças não são reais, a imagem afirma que o artifício está na vida e não na imagem. Nesse jogo de espelhos às avessas, nos juntamos à experiência das personagens, percebemos que somos as próximas vítimas.
Bibliografia

BARBOSA, André Antônio. Constelações da frivolidade no cinema brasileiro contemporâneo. Tese. PPGCOM – UFRJ. 2017.

BLOCK, Bruce A. A narrativa visual: criando a estrutura visual para cinema, TV e mídias digitais. São Paulo: Elsiever, 2010.

DONDIS, Donis A. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

FERREIRA, Pedro Henrique Ferreira. As arveres somos nozes. Revista Cinética. 7 de outubro de 2005. Disponível em Acesso em 10 de maio de 2018.

GIL, Ines. A atmosfera como figura fílmica. Actas do III SOPCOM, VI LUSOCOM e II IBÉRICO. Volume I, 2005.

LOPES, Denilson. Afetos. Estudos Queer e Artifício na América Latina. E-compós, Brasília, v. 19, n. 2, maio/ago. 2016.

MARTINS, India Mara. A direção de arte e a criação de atmosferas no cinema brasileiro contemporâneo. IN: BUTRUCE, Debora; BOUILLET, Rodrigo. A direção de arte no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Caixa, 2017.