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  Título
Composição do plano cinematográfico em “O Renascimento” e “Beaubourg"
Autor
Nikola Matevski
Resumo Expandido
Ao longo de 56 minutos, “Beaubourg, Centre d’art Georges Pompidou” (1977), o último filme dirigido por Roberto Rossellini, realiza uma exploração virtuosa do bairro Beaubourg e do edifício modernista do Centro de Arte e Cultura Georges Pompidou, em Paris. Sem se deter por muito tempo sobre um objeto ou um acontecimento isolado no visível, o filme é marcado sobretudo pelo trabalho do próprio dispositivo que continuamente produz movimentos conjugados de panorâmicas, travellings e variações de distância focal (zoom).



Essa mobilidade do aparato cinematográfico é influenciada, sobretudo, pela estética do cinema histórico-pedagógico empreendido por Rossellini a partir do início dos anos 60. Uma de suas notáveis características era precisamente o recurso ao zoom, medida interpretada à época, sob a lógica da economia produtiva, como um simples atalho que dispensava o oneroso trabalho da montagem. O uso contínuo da variação da distância focal operacionalizava, no cinema histórico-pedagógico de Rossellini, uma mise-en-scène da frontalidade, contribuindo ao arcaísmo que dispensava o plano-contraplano analítico em prol de um regresso ao tableaux primitivo.

No entanto, o zoom, além dos efeitos plásticos que sabotam a imagem em seu potencial ilusionista de efeito-janela, é também inalienável da duração. O chamado “movimento de câmera”, ou seja, o enquadramento variável no tempo, implica uma duração que em “O Renascimento” (1972) se articula lentamente com os demais objetos e ações da representação. O zoom não se configura nesses casos somente como intervenção classicizante, rigorosamente predeterminada e dirigida, mas implica também uma atividade plástica da imagem que contribui a formação de um ponto de vista virtualizado e não-antropomórfico, fazendo da visão uma atividade mental e exploratória (o distanciamento diegético resultante foi descrito por Andrew Sarris como “ponto de vista histórico”).

Mas, se nos filmes pedagógicos de Rossellini o tempo da cena é determinado pela exposição do texto, muitas vezes apenas lido pelos atores em cena e frequentemente transcrito das fontes históricas, em “Beaubourg” a mobilidade do dispositivo torna-se acontecimento soberano. Sem atender às premissas do filme de época, na síntese “mostrativa” de um conhecimento já constituído, o plano longo pode empreender movimentos altamente elaborados, que potencializam o fora de campo. Nessa comunicação iremos analisar comparativamente, com exemplos específicos, a composição dos planos em Beaubourg, Centre d’art Georges Pompidou (1977) e O Renascimento (1972).
Bibliografia

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BELTON, John. "The bionic eye: zoom esthetics". In: Cinéaste. Nova Iorque: n. 1, inverno de 1980-81, p. 20-27.

BONITZER, Pascal. Slepo polje. Belgrado: Institut za Film, 1997.

GALLAGHER, Tag. Adventures of Roberto Rossellini. Nova York: Da Capo Press, 1998.