Voltar para a lista
 
  Título
As cores vivas das lembranças - a Quase memória de Ruy Guerra
Autor
Carolina Bassi de Moura
Resumo Expandido
O presente artigo busca demonstrar por meio da análise do filme Quase memória (2018), de Ruy Guerra, uma adaptação literária do romance homônimo de Carlos Heitor Cony, o uso expressivo da cor como elemento constitutivo da linguagem da direção de arte.



Apoiando-se num uso mais plástico da cor, criou uma separação bastante impactante para a diferenciação dos tempos, presente e passado, na elaboração dos cenários e figurinos. Para a representação do tempo presente, usou tons monocromáticos que facilmente nos poderiam remeter ao preto e branco, e para as memórias do protagonista, usou tons vibrantes. A luz das cenas estão em perfeita sintonia com a proposta e também enfatizam esta sensação.



Nas cenas que se passam no momento presente, o personagem Carlos, dividido em um duplo velho e outro jovem, discute consigo mesmo a veracidade das memórias a respeito de sua infância e principalmente a respeito de seu pai. Nesses momentos, os enquadramentos de câmera são estáveis e mais clássicos, a iluminação é bastante contrastada com grandes áreas escuras que refletem o momento de Carlos – extremamente reflexivo e imerso em seu íntimo, ao final da vida. O cenário é o de sua casa e nos apresenta um local repleto de livros, um pouco bagunçado, com móveis e objetos um pouco antigos e de um estilo elegante, clássico, porém um pouco decadente e abandonado. Tudo parece estar empoeirado e abafado.



Nas cenas em que nos são apresentadas a memórias de Carlos em relação ao pai, vemos imagens extremamente coloridas. Os atores referentes ao passado interpretam seus personagens alguns graus acima do realismo e, concordando com esta interpretação, os figurinos também são muito mais coloridos do que um referencial realista. A iluminação nesses momentos também pode ganhar tons vibrantes de verdes, rosas, amarelos ou azuis, tingindo os figurinos, os personagens e até todo o ambiente. Os enquadramentos de câmera também são diferenciados, acrescentando instabilidade em eixos diagonais, ou mesmo apresentando as cenas em extremo plongée e contraplongée.



Tanto em um caso quanto no outro percebo um efeito metalinguístico em relação ao teatro. No caso das cenas no tempo presente Há também toques metalinguísticos em relação ao teatro e ao cinema ao buscar a “re-apresentação” dessa memórias e a própria “re-apresentação” do romance na forma de filme.
Bibliografia

GUERRA, Ruy. Quase Memória, 2018.

ZANIN