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  Título
Não Tem Tradução? O Cinema Falado de Noel, Rogério e Caetano
Autor
Marcos Pierry
Resumo Expandido
A comunicação pretende abordar o trânsito da canção “Não Tem Tradução” (1933), de Noel Rosa, por três diferentes momentos do cinema brasileiro: o estabelecimento do cinema sonoro no país, no início dos anos 1930; o longa-metragem A mulher de todos (1969), de Rogério Sganzerla; e o longa-metragem O cinema falado (1986), dirigido pelo cantor e compositor Caetano Veloso.

O que permite indagar a conhecida canção de Noel quando a mesma se oferece aos nossos ouvidos e olhos em épocas tão distintas de uma filmografia? Quando e de que forma estaria a migrar da função de crônica de um tempo – chegada do cinema sonoro – para atuar em uma operação localizada de metalinguagem (A mulher de todos) ou ainda assumir um papel de síntese do conjunto de propostas elencadas em determinada obra cinematográfica (O cinema falado)?

A atribuição desses predicativos é apenas um ponto de partida para se pensar nas chances de polivalência que a canção popular – no caso, um samba – pode adquirir no decorrer de um tempo significativo, tanto cronologicamente quanto do ponto de vista de uma agenda estética.

Frequentador assíduo de salas cariocas como o Smart, o Cine Boulevard e o Chie, onde na infância curtia as aventuras de Tom Mix e seu cavalo Tony, Noel Rosa (1910-1937) chegou a possuir um projetor manual. E assim que assistiu Coisas Nossas (1931), de Wallace Downey, primeiro longa brasileiro sonoro, no Cine Eldorado, fez a letra de “São Coisas Nossas”, que já glosava sobre o que seria genuinamente nosso ou exterior à cultura local. No mesmo Eldorado onde já havia feito temporada com o Bando dos Tangarás, apresentando-se sempre antes da projeção da primeira versão para as telas do romance Iracema.

Em 1933, a influência do cinema já deixou de ser novidade e afetava não somente a produção artística mais também o comportamento, a moda e outros setores. No mês de setembro, com a voz de Francisco Alves, chega às lojas a gravação de “Não Tem Tradução”, que começa com os seguintes versos: o cinema falado / é o grande culpado / da transformação. Versos que são repetidos, em performance de canto improvisado por Helena Ignez, em 1969, como a Ângela Carne e Osso de A mulher de todos. E que Caetano retoma no título de seu único longa-metragem, como metonímia da entourage performática, e verborrágica, que iremos encontrar no discurso de seu filme, com direito à um insólito número musical de “Último Desejo”, outro clássico de Noel.
Bibliografia

COSTA, Fernando Morais da. Som no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

MIRANDA, Suzana Reck. Que Coisas Nossas São Estas? Música Popular, Disco e o Início do Cinema Sonoro no Brasil. In: Significação - Revista de Cultura Audiovisual (online). ECA/USP, v.42, n.44, 2015.

NASCIMENTO DE LIMA, Luiz Fernando. Simbologia e significação no samba: uma leitura crítica da literatura. In: Per musi – Revista Acadêmica de Música (online). Escola de Música/UFMG, n°. 12, jul/dez 2005.

NEIVA MATOS, Cláudia. Gêneros na canção popular: os casos do samba e do samba canção. Cultura. Uberlândia, v. 15, n. 27, pp.121-132, jul/dez 2013.

SGANZERLA, Rogério. Por um cinema sem limite. Rio de Janeiro: Azougue, 2001, 120p.

----------------------. Edifício Sganzerla - Textos Críticos 1 e 2. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010.