ISBN: 978-65-86495-09-6
| Título | Considerações sobre o uso experimental das cores em Lucchi e Gianikian |
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| Autor | Ilma Carla Zarotti Guideroli |
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| Resumo Expandido | A produção dos artistas e realizadores italianos Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian se dá por meio da apropriação e intervenção nos chamados filmes de arquivo, sobretudo das primeiras décadas do século XX. Grande parte desses materiais são caracterizados por diversas camadas de violências, atravessados por objetivos colonialistas e racistas. Por meio da câmera analítica - aparato concebido pela dupla para lidar com essas películas -, conseguem tanto realizar minuciosas análises dos fotogramas individualmente quanto executar procedimentos de montagem variados, possibilitando assim que outras narrativas possam emergir dos materiais originais. Um aspecto bastante marcante na trajetória da dupla é o modo singular como trabalham as cores. Isso porque a paleta dos realizadores conta com um amplo e variado espectro tonal; assim, um único filme pode conter trechos banhados em diferentes cores como rosa, roxo, azul, verde, laranja, amarelo e vermelho. Tal característica atravessa todo corpus fílmico dos realizadores desde Karagoez - Catalogo 9,5 (1981). Os materiais de arquivo os quais Ricci Lucchi e Gianikian adquirem e se apropriam fazem parte do chamado primeiro cinema, quando procedimentos variados de colorização eram bastante comuns e amplamente utilizados. No processo de tingimento por exemplo, as películas em preto e branco eram imersas em banhos de corantes, responsáveis por colorir toda a emulsão. Muitas vezes, as técnicas eram usadas em conjunto para criar efeitos variados, além do método de colorização manual quadro a quadro, bastante demorado e trabalhoso. Com o advento do Technicolor e do som, tais métodos caíram em desuso. Especificamente sobre como pensam e trabalham cromaticamente, os realizadores fornecem poucas informações. Em seus textos e entrevistas, a questão é tratada de forma bastante breve; de modo similar procede sua fortuna crítica. Ao afirmarem: "A câmera respeita a cor do original do fotograma, [...] mas de forma autônoma também pode pintar grandes áreas do filme" (LISSONI, 2012, p. 14); e ainda "Às vezes usamos filtros particulares para reforçar as cores originais ou às vezes para mudá-las completamente" (MACDONALD, 1998, p. 280), levantam a hipótese de que a escolha e o uso das cores é pautado sobretudo por um forte caráter experimental. É importante destacar ainda o fato da dupla continuar usando tal recurso de colorização que banha toda a imagem, em alguns casos acentuando cores já presentes nos materiais de arquivo; em outros casos escolhendo novas cores para determinados trechos. Nessa direção, destacamos os primeiros dez minutos de Dal Polo all'Equatore, composto por tomadas feitas em uma viagem de trem. Este trecho é marcado pelas mudanças cromáticas variadas, que, junto à trilha sonora e ao ralenti, criam um ritmo próprio em que as cores adquirem protagonismo. Outro aspecto relevante é que, em diversos momentos, as cores causam uma sensação desnorteadora. Sobre isso, diz Robert Lumley: "[A] coloração da imagem adiciona outra camada, impõe uma distância maior comparada ao que vemos. Nosso 'ser transportado' agora se aproxima de uma experiência de sonho ou alucinação" (LUMLEY, 2013, p. 77-78). Nossa hipótese é que o distanciamento, como colocado pelo autor, é somente uma das leituras possíveis, pois há momentos que ocorre justamente o contrário, ou seja, a cor nos puxa para dentro da cena. Isso porque a colorização por vezes é responsável por uma fusão entre figura e fundo, na qual o fundo invade a figura principal, promovendo uma desierarquização em efeito similar ao baixo relevo, ou seja, de um corpo que se funde ao fundo. Outra característica notada pelas cores é enfatizar as texturas, em um jogo de claro-escuro que nos faz ver a imagem como canelamento, com suas estrias e cavidades variadas. Por fim, questionamos: este uso experimental das cores está diretamente implicado na reelaboração das imagens de arquivo, inclusive por um viés marcadamente político? |
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| Bibliografia | LICHTENSTEIN, Jacqueline (Org.). A pintura - Vol. 9: O desenho e a cor. São Paulo: Ed. 34, 2006. |