ISBN: 978-65-86495-09-6
| Título | Política do Simbólico.Experimental e decolonial na obra de Arthur Omar |
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| Autor | Ivana Bentes |
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| Resumo Expandido | Como articular a tradição experimental no cinema e audiovisual com questões políticas contemporâneas, atravessando e desconstruindo os discursos coloniais, a partir de formas que expressem essa desconstrução, para além dos clichês discursivos? As “formas que pensam” e a política do simbólico a partir das teorias e obras cinematográficas e fotográficas do cineasta e artista brasileiro Arthur Omar, que atravessam os anos 70 e chegam a trabalhos recentes (2022) com conceitos e figuras de linguagens que operam em seus textos, ensaios, filmes e séries fotográficas. Passando do cinema a fotografia e vice-versa, perseguindo as condições de possibilidade do ato fotográfico e cinematográfico, e da cognição, Arthur Omar constrói ao longo de mais de 40 anos objetos-experimentos: os anti-documentários e desmontagens que produzem narrativas decoloniais e colocam a cultura de matriz-africana e os corpos negros na centralidade de uma reversão material e simbólica. As tradições míticas indígenas, o carnaval das formas em Triste Trópicos; os rostos extáticos da Antropologia da Face Gloriosa; o pensamento do homem do rio conectado paisagens da Amazônia e os impasses do antropoceno em O Esplendor dos Contrários e por fim, a dissolução dos objetos no livro-ensaio Antes de Ver (2015). Se os processos de decolonização nos parecem intransponíveis, como essas obras de Arthur Omar trazem operações de linguagem e estéticas que já operam essa transmutação por meio de uma política do simbólico. Como imagens e os corpos em a Coroação de Uma Rainha e Sonhos e Histórias de Fantasmas, de Arthur Omar dialogam com os as noções de afrografias da memória e tempo espiralar da intelectual negra Leda Maria Martins? Quais as alianças possíveis entre o experimental e o decolonial para além de polarizações e segmentações e afirmando as lutas pela diversidade, contra desigualdades e assimetrias? Como as estéticas, imagens e corpos respondem as questões políticas do presente urgente? Fazendo uma releitura histórica podemos retomar a Antropofagia, de Oswald de Andrade que lança um olhar sobre o passado recente da América e encontra uma cultura original capaz de inspirar outras formas de criação artística e colocar em xeque os valores da tradição europeia. Nesse sentido temos um novo referencial para uma modernidade brasileira alternativa, como pensada por Homi Bhabha, que reintroduz e positiva os termos hibridismo, ambivalência, negociação na relação colonial Índios e negros tem seu legado e sua cultura ressignificados a partir de uma transvaloração radical. Enquanto as vanguardas europeias buscavam o novo no contexto industrial e urbano, Oswald olha para nosso passado mais remoto (nossa “Idade do Ouro”) e encontra na dança e música africanas, nas línguas indígenas, na cultura popular, em símbolos e práticas sociais ancestrais, elementos formais para a criação de uma vanguarda brasileira e americana. Esse trópico pelo avesso também é a proposta de “Triste Trópico” (1974), de Arthur Omar, que vai relacionar de forma singular personagens e ideários relacionados às vanguardas europeias, à antropofagia, ao messianismo indígena e ao carnaval carioca. O filme também é uma crítica estrutural da noção de trópico e tropicalidade, como pensamento dos colonizadores diante da alteridade, a América tropical, e como imagem simultaneamente produtiva e problemática, que tomamos na construção de uma América e de um Brasil imaginados. “Triste Trópico” se volta tanto para a desconstrução do olhar estrangeiro, do colonizador, da literatura dos navegantes, dos relatos de Levi-Strauss, quanto para os clichês de brasilidade, a identidade tropical para consumo interno e exportação. Nesta proposta buscamos avançar com as conexões dessas obras e pensamento como parte de um discurso intercultural e programa aberto aos novos sujeitos do discurso, alianças entre intelectuais e artistas negros e brancos e controvérsias decoloniais. |
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| Bibliografia | AUMONT, Jacques. As Teorias dos Cineastas, SP: Papirus Editora. 2002 |