ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | As estátuas também vivem: restituição de máscaras por filmes africanos pós-pilhagem e morte colonial |
|
| Autor | Aly Brenner Nogueira Pereira |
|
| Resumo Expandido | Esta comunicação parte do debate trazido pelo documentário Les Statues Meurent Aussi de Alain Resnais, Chris Marker e Ghislain Cloquet, de 1953, que denuncia a pilhagem colonial das artes africanas e a sua “morte” nos museus europeus, já que os mesmos as escondem, descontextualizam e exotizam. Ainda mais ao considerarmos quão drástica é a mudança que ocorre já que as máscaras são formas simbólicas muito importantes para as expressões artísticas e religiosas de vários povos africanos, feitas com o objetivo de serem usadas, não sendo meras esculturas, mas “objetos de poder”, como coloca o nigeriano Ola Balogun (1990, p. 26-27). Assim, percebe-se a criação de uma ficção museal que naturaliza, e torna um conto de fadas da história da humanidade, a pilhagem feita por ingleses, na Expedição punitiva em 1897, dos Bronzes do Benin, atual Nigéria; ou as ocorridas nas guerras Anglo-Asante do século XIX, parte atual de Gana. Logo, esses museus podem e devem ser pensados como arquivos coloniais, assim como o cinema produzido na África pelos europeus durante a colonização. Já que era utilizado para propagandear a ação colonial, além de a arquivar, desde os minutos Lumière até às unidades de produção cinematográfica da África Colonial Britânica. Constituintes de um arquivo colonial que Ann Laura Stoler enxerga não só relações de poder, mas também uma arte, a das complexas tecnologias de governança (STOLER, 2018, p. 207). Movimento que muda a partir das independências desses territórios, já que os seus próprios cinemas nascem e cineastas africanos filmam sobre diversas temáticas, subvertendo o olhar cinematográfico. A grande presença de filmes que tratam sobre esse passado colonial ainda ressoante perpassa diversos aspectos, um deles são as artes africanas, em especial, as máscaras ainda presentes em diversos arquivos coloniais. A partir de um levantamento, foram encontrados 23 filmes de países ou de cineastas africanos, produzidos a partir desse contexto, que trazem as máscaras/esculturas africanas seja na mise en scène, ou de modo mais geral na narrativa de tais obras. Nesta apresentação, o foco será destinado a três delas: I - Roubo de mortos em You Hide Me (The Colonization of African Art in the British Museum), do ganense Nii Kwate Owoo, de 1970; II - Prisão de fantasmas em Et les chiens se taisaient, da francesa Sarah Maldoror, de 1978; e III - Restituição de vivos em La Noire De, do senegalês Ousmane Sembène, de 1966. Como forma de contextualizar a produção intelectual desses projetos, e mostrar suas formações, ligações e trânsitos, será significativo ressaltar que essas três intelectualidades cineastas se encontram. Sembène e Maldoror têm a mesma formação cinematográfica, ambos estudam Cinema no início da década de 1960 no Instituto Nacional de Cinematografia da União Soviética (VGIK), em Moscou, na então União Soviética (SCHEFER, 2015, p. 142). Owoo, que declara ter influência do cinema cubano (WAGNE; OWOO, 2024) e se coloca como ativista político, por sua vez, entrevista Sembène em 1989. Ambos debatem o lugar da língua nos cinemas africanos, importante tema compartilhado pelos dois (OWOO; SEMBÈNE, 2008, pp. 27-29). Assim, conseguimos traçar laços em intelectualidades cinematográficas complexas, que também são perpassadas pelo debate da arte africana. Baseado no recorte e na análise de tais filmes e com auxílio de uma bibliografia sobre museologia, arquivos e arte. Levanta-se a hipótese de que tais cineastas, aqui tratados com a “função-historiador” (SANTOS, 2021, p. 218-219) e como cineastas historiadores (ROSENSTONE, 1998), e de que o uso que fazem dos arquivos coloniais de museus provocam atos descolonizadores museológicos, restituição (de vida) e uma repatriação simbólica às máscaras africanas em uma longa história compartilhada dos cinemas africanos (desde década de 1960 ao século XXI). |
|
| Bibliografia | BALOGUN, Ola. African masks: keys to the spirit world. The UNESCO Courier: a window open on the world, XLIII, 12, 1990, p. 26-27. |