ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A representação da realidade no cinema de terror nas obras O animal Cordial (2017) e Medusa (2021) |
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| Autor | Fernanda Tôrres de Miranda Estevam |
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| Resumo Expandido | O terror muitas vezes é um reflexo histórico e social, que possibilita fabular a realidade e tratar de assuntos existentes através do fantástico. O Brasil é um país que traz em sua história e em seu presente várias marcas de terror - colonização, escravidão, ditadura militar, racismo, desigualdade social -, e trazer esses assuntos para o cinema é dar visibilade a nossa própria história. O terror nos permite lidar com verdades e realidades as quais nos recusamos a enfrentar. No ano de 2016, o Brasil testemunhou um golpe misógino organizado pelo centro e pela direita política do país sobre a então presidenta Dilma Rousseff, um processo cercado de incongruências que impichou a primeira presidente mulher da história do Brasil. A classe média que ascendeu economicamente durante os governos do PT (Partido dos Trabalhadores) quer se distanciar das classes mais baixas e busca se encontrar na burguesia brasileira, que não aceita nem reconhece a classe média como sua igual. Nessa busca pela sua nova identidade social/financeira, a classe média reforça ainda mais seus preconceitos e violências contra as classes mais baixas e a tudo aquilo que elas representam, criando inclusive uma aversão aos símbolos nacionais populares. O revanchismo contra os grupos sociais que ganharam mais direitos durante os governos do PT ganha força, sendo representado pelo retrocesso de medidas que protegem esses grupos e pela crescente violência contra esses mesmos grupos. É nesse Brasil que se passa O animal Cordial (2017), obra na qual a roteirista e diretora Gabriela Amaral Almeida explora os terrores de uma realidade social que representa de várias formas a sociedade em que o filme foi produzido. Em O animal Cordial (2017), o terror que ocorre dentro do restaurante é um terror social, a sociedade brasileira contemporânea é representada naquele micro espaço, fazendo com que as tensões de classe, gênero e raça deflagrem com violência. Cada personagem representa uma camada distinta da sociedade brasileira de forma extrapolada e ficcionalizada e cada um desses personagens são pessoas que encontramos em nossa realidade, mas com ações e reações maximizadas nos limites das paredes de um restaurante. Somos nós vendo a nós mesmos através da lente do terror. Se o período de produção de O animal cordial (2017) acompanhou o processo de ascensão da extrema direita brasileira em seu princípio, Medusa (2021) vive em um Brasil governado por ela. Lançado em 2021 no circuito de festivais e em 2023 no circuito comercial, o filme de Anita Rocha da Silveira viveu a eleição de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil, o crescimento exponencial do entrelaçamento de religiões neopentecostais com a política brasileira e, consequentemente, o aumento do poder dessas igrejas na sociedade. Essa onipresença das igrejas neopentecostais em inúmeros setores da sociedade brasileira - política, segurança, saúde, políticas públicas e até mesmo no entretenimento - teve grande impacto no país, que se sentiu livre para demonstrar sua face mais conservadora e misógina. Segundo a diretora, a ideia do filme veio de uma notícia de jornal sobre mulheres que estavam violentando outras mulheres que não seguiam os preceitos de suas religiões, e ler sobre isso chamou sua atenção pois para ela, a notícia por si só era aterrorizante, um filme de terror real. A análise da relação entre a realidade e as formas do cinema de terror de representá-la, através dos filmes O animal Cordial (2017) de Gabriela Amaral Almeida e Medusa (2021), de Anita Rocha da Silveira, é o objetivo desse seminário. |
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| Bibliografia | CARNEIRO, Gabriel e SILVA, Paulo Henrique. Cinema fantástico brasileiro 100 filmes essenciais. Editora Letramento. Belo Horizonte. 2023 |