ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Entre a Performance e o Artifício, o Melodrama Queer em Inferninho |
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| Autor | Caio Cardoso Holanda |
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| Resumo Expandido | Em Inferninho, os elementos estéticos são fundamentais para estabelecer a identidade fílmica, já que a materialidade imposta a partir das instâncias audiovisuais explana a precariedade kitsch aplicada ao ambiente, que originalmente é um galpão, mas se torna um ambiente de queeridade periférica. O trabalho da equipe de arte, principalmente da diretora Taís Augusto e dos figurinistas Isac Bento e Filipe Arara, construiu uma atmosfera camp em um bar periférico onde o estranhamento é causado pelo visual, e a performance musical, ao qual expõe os sentimentos dos personagens, estabelecendo a relação entre canção e o humor da audiência. Knigths (2006) afirma que certa artificialidade que permeia as práticas camp não significa uma frivolidade e/ou um vazio de conteúdo, pois através da identificação e do investimento emocional de quem assiste, “o camp fornece um espaço cultural queer em que identidades de gênero e papeis sexuais podem ser desconstruídos e articulados (2006, p. 93-94). Entretanto, Inferninho explora uma atmosfera camp voltada ao que Denilson Lopes chama de “estética da frivolidade” (2016), ao se referir a uma forma específica do cinema independente que se distancia do realismo. Assim, desconstruindo a solidão e opressão a partir do uso do artifício em sua estética sensível e teatral, o filme cearense se alinha a uma identidade muito presente no cinema queer contemporâneo. Vale reforçar que Foucault (2001) observou que, na vida cotidiana, a criação de espaços heterotópicos são necessários para escapar da repressão, onde os indivíduos podem celebrar suas existências. Neste sentido, Inferninho é o bar da heterotopia queer, com sua porta de entrada exercendo a função de portal entre o mundo externo e o artifício, além da separação com o universo heteronormativo. No entanto, a fragilidade desse espaço se torna evidente com a invasão de forças externas, como os marinheiros e o agente da construtora. A tranquilidade do refúgio se transforma em caos, e o Inferninho, antes um espaço de liberdade, se torna uma prisão. A teatralização dos atores do Grupo Bagaceira, responsáveis pelo elenco do filme, e as caracterizações exageradas dos personagens criam um ambiente intenso e dramático, que realça a expressão dos sentimentos e a exploração da diferença. A melodramaticidade do universo queer em Inferninho é intensificada por essa estética do excesso, que permite que os personagens explorem suas emoções de forma exagerada e explícita. A arte do excesso nesse contexto se torna uma ferramenta para desconstruir normas e questionar padrões, permitindo a intensidade das performances e singularidade melodramática de cada personagem. A imaginação melodramática permite que a centralidade narrativa permaneça na figura feminina e nos seus anseios, moldando um melodrama queer que coloca Deusimar em busca de seu lugar no mundo desafiando a heteronormatividade. Na sequência de “Vermelho Azulzim”, canção que funciona como estimulação do imaginário, a protagonista vivencia um clímax, transitando sem se deter num espaço marcado por uma encenação atmosférica, um mood, mais do que por uma narrativa, um enredo. A música desempenha um papel fundamental nesse processo. “Vermelho Azulzim”, com sua sonoridade vibrante, funciona como um catalisador para a imaginação de Deusimar, levando-a a um momento de clímax emocional. Em vez de se prender a uma história linear, a cena se transforma em um estado de espírito, uma atmosfera que transcende a narrativa tradicional permitida pela imaginação melodramática. A música, nesse caso, é mais do que um simples acompanhamento, ela é a voz da protagonista, expressando seus desejos, suas angústias e sua busca por liberdade. |
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| Bibliografia | BROOKS, Peter. The Melodramatic Imagination Balzac, Henry, James, Melodrama and the Mode of Excess. Yale: Yale University Press, 1995. |