ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Cenografia da Repetição, Dispositivo Crítico |
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| Autor | Benedito Ferreira dos Santos Neto |
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| Resumo Expandido | Em São Paulo S/A (Luiz Sérgio Person, 1965), o crédito de Art-Direction concedido a Jean Laffront sinaliza um avanço no reconhecimento da função no cinema brasileiro. Dois anos depois, em O Caso dos Irmãos Naves (1967), também dirigido por Person, o crédito permanece em inglês e é atribuído a Sebastião de Souza e ao próprio diretor, evidenciando a continuidade e a valorização da direção de arte na obra do cineasta paulistano. A trajetória artística de Sebastião de Souza revela sua versatilidade e trânsito por diversas funções no cinema. Seu primeiro contato com o cinema ocorreu na década de 1960, quando conheceu o cineasta Roberto Santos, atuando como estagiário na filmagem de A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965). A experiência marcou o início de uma trajetória multifacetada, que inclui trabalhos como diretor, continuísta, produtor, diretor de arte e cenógrafo. Na direção cinematográfica, destacam-se os filmes Cu da Mãe (1969), Festa do Divino (1969), Em Cada Coração um Punhal (1970) e O Quarto da Viúva (1975). Na direção de arte, deixou sua marca em longas-metragens como Anjos do Arrabalde (Carlos Reichenbach, 1987), Cinderela Baiana (Conrado Sanchez, 1998) e As Tranças de Maria (Pedro Carlos Rovai, 2003). Além do cinema, Souza também esteve presente no teatro e na concepção visual de espetáculos musicais, contribuindo para a identidade visual de shows de artistas como Inezita Barroso e a icônica dupla Tonico & Tinoco. Em Transplante de Mãe, episódio inaugural do longa-metragem Em Cada Coração um Punhal (Sebastião de Souza, José Rubens Siqueira e João Batista de Andrade, 1970), Sebastião de Souza reencontra Jean Laffront, que assume a direção de arte do curta. Filmado no sítio da família de Souza em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo, o episódio articula uma crítica aos bens de consumo de massa e constrói uma paródia das convenções do cinema narrativo. A direção de arte de Laffront explora uma visualidade de ampla adaptabilidade, assume diferentes recursos publicitários e incorpora o que Raymond Bellour (1979) denomina “cenografia da repetição”. A repetição, elemento estrutural recorrente nas narrativas clássicas, adquire uma nova dimensão. Em vez de reforçar a linearidade e a previsibilidade da trama, transforma-se em dispositivo de ruptura e estranhamento. A predileção de Souza por figuras edipianas — traço marcante de sua filmografia — encontra em Transplante de Mãe o terreno fértil para experimentações cenográficas e de figurinos. A mise-en-scène se torna deliberadamente excessiva, culminando no jogo de improviso que atinge seu ápice na construção da casa da Mãe — ambiente central do trabalho de Laffront, que, além de assinar a direção de arte, também participa como ator em uma das sequências. O hibridismo entre cenografia e performance acentua o tom extravagante da direção de arte, no qual a materialidade dos objetos cênicos ultrapassa sua função decorativa e se converte em componente altamente crítico. Ao longo do filme, o diálogo entre a direção de arte e a mise-en-scène revela a intenção de subverter convenções cinematográficas. Laffront, com uma abordagem experimental, não apenas ambienta as locações da trama, mas também as ressignifica, transformando-as em zonas de tensão onde o artificial se torna explícito. A visualidade do filme se define pelo improviso e pelo deslocamento de signos visuais, o que lhe confere uma identidade singular no cinema brasileiro da época. A colaboração entre Sebastião de Souza e Jean Laffront em Transplante de Mãe exemplifica essa transição, ao tratar a cenografia como dispositivo narrativo e propor novas visualidades para o cinema brasileiro dos anos 1970. |
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| Bibliografia | BELLOUR, Raymond. Cine-Repetitions. Screen, v. 20, n. 2, p. 67-72, 1979. |