ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Entre Ori e Quilombo: Dois Filmes, Dois Quilombos |
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| Autor | Rafael Garcia Madalen Eiras |
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| Resumo Expandido | Esta proposta analisa a representação do conceito de quilombo em Orí (1989), de Rachel Gerber, e Quilombo (1984), de Cacá Diegues. Apesar das diferenças, ambos os filmes constroem o quilombo como um espaço de resistência cultural e política nos anos 1980. Ponto central nas duas obras é a presença do ponto de vista de Beatriz Nascimento (2006). Historiadora e consultora de Quilombo, ela já havia criticado Xica da Silva (1976), de Diegues, por representar o corpo negro de forma estereotipada, o que gerou debates sobre sua visão da cultura afro-brasileira e a polêmica expressão “patrulhas ideológicas”. Em Quilombo, Diegues busca corrigir essa abordagem, mas, sendo um cineasta branco da elite intelectual, enquadra o quilombo dentro de uma utopia conciliadora no contexto da redemocratização. Em Quilombo, a presença de Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e outros consultores negros é fundamental, especialmente na abordagem dos aspectos místicos e espirituais da cultura afro-brasileira. No entanto, a visão nacionalista de Cacá Diegues, influenciada pelo Cinema Novo, ancora a resistência quilombola em uma proposta conciliadora, buscando integrar a cultura negra à construção de um Estado democrático. A incorporação dos orixás pelos personagens reforça essa resistência, mas dentro de um processo de transformação gradual e não de ruptura. Essa abordagem responde à necessidade de maior representatividade negra no cinema brasileiro durante a redemocratização, mas também revela a tentativa de incluir as populações negras dentro da lógica eurocêntrica do Estado. Em contraste, Orí apresenta uma visão radical, na qual Beatriz defende, de forma poética e lúdica, a ruptura com um Estado historicamente opressor, resgatando experiências de poder comunal africanas ainda presentes nas favelas e manifestações afrodiásporicas no Brasil. Essa perspectiva dialoga com as ideias de Abdias do Nascimento (2002) sobre o quilombismo, que propõe um modelo autônomo de organização social para as populações negras. Afinal, o Estado brasileiro, tanto na década de 1980 quanto hoje, permanece marcado por um “DNA racista e assassino” (MORAIS, 2020). Assim, enquanto Quilombo sugere uma mediação, Orí propõe uma ruptura. Em Quilombo a trajetória de Ganga Zumba e Zumbi, marcada pela tentativa frustrada de consolidar Palmares, simboliza a derrota histórica das lutas negras no Brasil. No entanto, Diegues transforma essa derrota em otimismo, construindo um Palmares utópico, um espaço à margem do oficial, com elementos carnavalescos de inversão. O filme, mais do que representar o movimento negro, se apropria dos debates identitários para formular uma reflexão sociológica sobre o Brasil. Embora adote uma abordagem culturalista e otimista, evidencia também os desafios da redemocratização, sugerindo que a luta negra segue limitada dentro do projeto democrático emergente. Já Orí (1989) segue um caminho distinto. O documentário, fragmentado em múltiplas vozes e situações contraditórias, encontra unidade na narração e no coro de Beatriz Nascimento, construindo uma perspectiva polifônica e em movimento constante. Essa dinâmica remete à anarquia como teoria política, aproximando-se da análise de Mbah e Igriwey (2018), que relacionam a vida comunal africana a formas alternativas de organização social, questionando a centralidade do Estado Moderno. A associação entre quilombo e democracia é uma construção (TEODORO et al, 2016), Esses territórios de resistência não seguiam os princípios da democracia ocidental. Assim, Quilombo e Orí representam construções distintas: enquanto Diegues propõe uma mudança dentro das estruturas existentes, Orí reivindica um novo modelo de poder baseado na autonomia e na valorização da cultura negra. Dessa forma, os filmes revelam abordagens contrastantes de resistência, expondo a tensão entre a inclusão da cultura afro-brasileira no Estado e a busca por sua transformação radical, cada qual respondendo às limitações impostas pela modernidade. |
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| Bibliografia | DIEGUES, Cacá. Quilombo. Brasil: Embrafilme, 1984. |