ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Zoom In, Zoom Out: Escalas do olhar nas metodologias de cinema comparado |
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| Autor | Lara Freitas de Carvalho |
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| Resumo Expandido | Uma mulher nua se banha com sangue e plumas – um plano geral revela seu corpo inteiro; um plano detalhe expõe penas brancas aderidas à superfície viscosa e vermelha, criando um palimpsesto de texturas. Corpos femininos nus habitam a natureza, ora integrados à paisagem, ora tão próximos que distinguimos gotas d'água sobre a pele. Um corpo negro feminino despe-se em um terreno baldio, sua textura contrastando com ruínas urbanas. A emulsão fílmica arranhada veste temporariamente corpos em ato sexual, transformando-os em fragmentos quase abstratos. Indumentárias coloridas de mujeres jaguar constroem visualidades territoriais, enquanto o hábito religioso de uma freira impõe geometria calculada sobre um corpo negro. Nestas imagens – de Sangre + Plumas (1974), Dyketactics (1974), Water Ritual #1 (1979), Fuses (1965), Aribada (2022), Diary of an African Nun (1977) – o olhar cinematográfico opera em múltiplas escalas, oscilando entre panorâmico e microscópico. A câmera que contempla o corpo integral simultaneamente o fragmenta em detalhes quase irreconhecíveis. O som amplifica esta operação escalar – em Diary of an African Nun, silêncio contemplativo e percussão criam paisagem sonora abrangente, enquanto respiração e voiceover produzem intimidade auditiva. Esta mobilidade inerente da experiência cinematográfica convida a propor, através dos Estudos Comparados, uma cartografia escalar que opere entre diferentes níveis de análise. Como examinar obras observando tanto o microscópico quanto o panorâmico? Como navegar analiticamente entre a materialidade fragmental dos planos e as constelações mais amplas de significado que estes filmes conjuram coletivamente? Propomos um método inspirado simultaneamente na topologia, que estuda propriedades que permanecem invariantes sob transformações contínuas, e nas ciências observacionais (microscopia/telescopia), que revelam como diferentes fenômenos tornam-se visíveis apenas em determinadas escalas. Esta abordagem não privilegia a priori nenhuma escala específica, mas estabelece protocolos para movimentos pendulares entre diferentes níveis de aproximação – do detalhe do tecido sobre a pele até redes transculturais de imagens corporais. A estrutura cinematográfica já opera intrinsecamente com escalas. Quando Schneemann fragmenta o corpo em closes extremos, ou quando McCullough alterna entre corpo integral e seus detalhes, o cinema realiza seu próprio recorte escalar. Nossa proposta metodológica potencializa esta operação constitutiva, sistematizando-a em protocolos analíticos como: (1) amostragem estratégica de elementos para diferentes escalas; (2) técnicas de “focagem” para ajustar o olhar analítico; (3) instrumentação teórica específica para cada nível; (4) integração das descobertas multiescalares. Exemplificamos esta metodologia através da análise da relação tecido-pele no corpus apresentado, replicando e expandindo o gesto de aproximação proposto pela constelação fílmica (Souto, 2020). Este movimento revela políticas inscritas nas superfícies – tanto dos corpos quanto dos filmes – que permanecem invisíveis quando observadas em escala fixa. A proposta dialoga com a microanálise fílmica de Bellour (2002); com as investigações de Doane (2021) sobre close-up e escala; com a “visualidade tátil” de Marks (2000); com a análise figural de Brenez (2023) que identifica formas que ultrapassam estruturas narrativas; e com as propostas warburguianas (Didi-Huberman, 2013) do Atlas Mnemosyne e do Pathosformel – fórmulas expressivas que migram através de diferentes contextos, revelando conexões inesperadas entre gestos distantes no tempo e no espaço, tal como o zoom metodológico permite identificar entre os diferentes filmes analisados. |
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| Bibliografia | ALMEIDA, Ana Caroline de. Cidades-gestos em melancolia: o cinema brasileiro dos anos 2010 entre vibrações de desejos e traumas urbanos. Recife, 2020. 262 p.: il. |