ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Fordlandia Malaise: estratégias visuais para superar o olhar extrativista |
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| Autor | Xosé Iván Villarmea Álvarez |
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| Resumo Expandido | O olhar extrativista é muito longevo: as câmaras levam percorrendo o mundo desde as origens da fotografia e do cinema, mas demoraram um século em chegar às mãos dos moradores dos lugares mais longínquos. O lugar de fala, portanto, é um lugar em disputa: Quem pode filmar a quem? E quem pode filmar o que? Qualquer registro visual, aliás, revela implicitamente o seu lugar de fala, pelo que a revisão das imagens do passado exige também pôr em causa o seu lugar de fala e, com ele, o seu discurso, para assim poder construir outros discursos com outras vozes que foram silenciadas. O lugar de fala da cineasta portuguesa Susana de Sousa Dias é o de uma intelectual europeia que tenciona redefinir o sentido das imagens dos arquivos policiais, militares e empresariais com o intuito de recuperar a memória reprimida de um passado ominoso: os seus filmes tentam reconstruir aqueles momentos que não puderam ser registados —ou que foram intencionalmente apagados— para revelar os pontos cegos da historiografia. A média-metragem 'Fordlandia Malaise' (2019), por exemplo, começa com uma montagem intersticial de fotografias realizadas pelos colonos norte-americanos que tentaram criar uma company town na Amazonia para a Ford Motor Company entre 1927 e 1945. Aquelas imagens estabelecem uma narrativa que deixa de fora muitos elementos, nomeadamente as experiências dos moradores do lugar, com especial destaque para as mulheres, os ameríndios e os trabalhadores migrantes, mas também os direitos e as necessidades da natureza, que é representada como um recurso passivo, nunca como um ecossistema ativo. O arquivo, portanto, conta uma história parcial que opaca outras histórias que a realizadora tenta trazer à tona mediante diferentes estratégias de encenação, entre as que salienta o contraste entre os planos aéreos, filmados com uma câmara-drone, e os testemunhos sonoros dos moradores do lugar. O fracasso dos projetos agroindustriais da Ford Motor Company no Brasil truncou a narrativa que tentavam construir as fotografias conservadas no seu arquivo: os colonos norte-americanos, finalmente, não conseguiram submeter a natureza equatorial aos seus desígnios, pelo que a cidade utópica que tentaram construir no meio da selva passou a ser, de acordo com a sua perspectiva, uma cidade fantasma. Susana de Sousa Dias, no entanto, não encontrou uma cidade abandonada quando chegou a Fordlândia em 2018, mas “um espaço físico habitado e um espaço identitário criado por várias gerações” (2020, 16); uma cidade real, viva, cuja existência desafiava essas duas narrativas hegemónicas e complementárias construídas desde fora —a cidade utópica e a cidade fantasma— e obrigava a pensar no que havia antes da chegada dos colonos norte-americanos à região, em 1927, e no que ficou depois do abandono do seu empreendimento, a partir de 1945, isto é, nas lacunas da história de Fordlândia. De frente a esse vazio, o impulso da realizadora foi colocar de lado o que Enzo Traverso identifica como “memórias fortes” —os discursos alimentados pelas instituições oficiais e os estados— para centrar-se nas “memórias fracas” da população como ferramenta para recuperar o que fora apagado (Traverso 2005; Dias 2020, 18). 'Fordlandia Malaise', portanto, quer libertar a vila operária e a natureza amazónica desse olhar neocolonial e extrativista através da representação dos tempos da paisagem —o antes e o depois— mediante elementos como a montagem intersticial das fotografias de arquivo, os novos registos de imagens ambientais ou a inclusão das vozes e dos testemunhos dos seus moradores. A análise destas estratégias de encenação tenciona abrir uma reflexão sobre o confronto entre os diferentes olhares e relatos que ainda hoje condicionam a percepção da natureza amazónica, que aqui sai dos interstícios para ocupar a maioria de planos como uma realidade incontornável que condiciona a experiência de todas as pessoas que passaram por lá, incluída a realizadora e, com ela, os espectadores deste filme |
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| Bibliografia | · Berardi, F. 2017. Futurability. The Age of Impotence and the Horizon of Possibility. Verso Books. |