ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Considerações e questões preliminares sobre filmes como corpos doentes |
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| Autor | Diogo Vasconcelos Barros Cronemberger |
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| Resumo Expandido | Partimos de uma analogia comum: fala-se em roteiros com barriga, filmes com gordura, ou esquizofrênicos, ou que não respiram, cenas que são corpos estranhos. Falam críticos e público sobre obras para descrevê-las e fazer juízos de valor, mas também realizadores durante sua produção, e script doctor é o nome que se dá ao responsável por ajudar a sanar problemas de roteiro. Nessa perspectiva, a hipótese é que, por trás do discurso análogo ao feito sobre a necessidade de corpos humanos saudáveis, estaria o imperativo de uma normatividade estética: a gordura deveria ser cortada, o corpo estranho extirpado, etc. Seria um filme “saudável” melhor? Ou apenas normativo? Segundo quem? Para o benefício de quem? Na história do pensamento sobre cinema, a doença como metáfora ou analogia não é novidade. Vale ressaltar, em Hitchcock/Truffaut, a categoria de “grandes filmes doentes” (2004, p. 324), que dá à doença uma conotação positiva: trata-se de filmes não perfeitos como as obras-primas, mas geralmente mais vibrantes, as imperfeições abrindo frestas para o extravasamento das razões de ser das obras. A partir dos anos 1990, em oposição às teorias de base psicanalítica, teóricos (em especial, teóricas) trouxeram o corpo para o primeiro plano, o do espectador e o do filme, como Williams e Sobchack, por exemplo, e Elsaesser e Hagener publicaram quase vinte anos depois um livro de teoria do cinema a partir de sua relação com o corpo humano e seus sentidos. É de Elsaesser, lidando com “filmes de jogos mentais”, o conceito de “patologia produtiva” (2009), que descreve e analisa personagens cujas doenças funcionam como formas de empoderamento. Desordens de personalidade, por exemplo, seriam úteis para disciplinar, controlar, ensinar ou treinar personagens e espectadores no século XXI. A paranoia, sintoma do transtorno de personalidade paranoide, poderia ser apropriada, ou até produtiva, para nossa sociedade de redes. O conceito de “patologia produtiva”, ligado a personagens, poderia ser deslocado para filmes com “problemas”, doentes por analogia com processos humanos, mas cujas doenças podem ser produtivas. Já o de “patologias fílmicas”, de Lucas de Barros (2021), também ligado a personagens, poderia ser deslocado para abranger corpos fílmicos doentes que não necessariamente representem formalmente estados de personagens com patologias, que poderiam existir ou não em suas narrativas. Seria importante precisar o conceito de corpo fílmico, ainda que provisoriamente: de certo modo antropomorfizado, parte do engendramento da trama de cada um, junto aos elementos sensoriais que a exprimem, ao longo de sua duração. Poderia a doença de um filme ser sua força, como a precariedade na “Estética da Fome” (1965)? Se a literatura ajudou Pasolini (1982) com seu conceito de “cinema de poesia” (de novo 1965!), em que diríamos que a “doença” toma o corpo fílmico, tendo como paradigma a “saudável” linguagem “de prosa”, a área da saúde (sobretudo, a medicina e sua filosofia) pode ser útil para pensarmos um cinema doente. Segundo Canguilhem (2009), o anormal não é patológico e, para Hegenberg (1998), se a noção de doença envolve a de normalidade, há que se problematizar a última, e doença não teria a ver com o que é indesejável. Assim, uma “doença fílmica” poderia ser desejável? O que revelaria de um corpo fílmico? Poderia ser contagiosa? Mais que só a dimensões expressivas, tal comparação leva a questões políticas: um cinema hegemônico se deixaria “contaminar” por algo estranho para neutralizar a força de uma “doença”, como antes indicado às crianças em relação à catapora? O que é, enfim, doença? Mais que respostas, interessam dificuldades, imprecisões. Que essas analogias e metáforas permitam que interroguemos questões de formas novas, pensando mente e corpo não como opostos ou separados, mas extensões mútuas, como na obra de David Cronenberg, essencial por lidar com questões de saúde nos planos temático e expressivo, podendo expandir nosso instrumental analítico. |
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| Bibliografia | BARROS, Lucas Camargo de. Patologias fílmicas. Lisboa: FCSH, 2021. |