ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | “Bang Bang” de Andrea Tonacci, um filme alegórico? |
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| Autor | THIAGO MENDONCA |
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| Resumo Expandido | Uma questão importante para compreendermos Bang Bang (1970), de Andrea Tonacci. Seria este filme estruturado como alegoria, como tantos filmes de seu tempo? Esta é a posição, por exemplo, do crítico Ismail Xavier, o mais importante intérprete da obra de Andrea Tonacci e um dos grandes pensadores do cinema brasileiro. Gunther Anders, ao discutir o romance moderno na primeira metade do século passado, afirma: “Com exceções, o romance atual não é moderno. No melhor dos casos, descreve o que vê. Em contraposição, Kafka - e depois Brecht – forjam situações deformantes, em que introduzem seus objetos de pesquisa – o homem contemporâneo, visando fixação”. Para Anders, essas situações deformantes seriam realistas, porque de fato desvelariam o real. Ao apontar o deslocamento entre o homem comum e a linguagem pretensamente realista do cinema hegemônico, Tonacci deforma para construir um caminho. Assim, ao discutir os fundamentos da linguagem hegemônica e colocar em xeque o seu valor como norma, Tonacci pode ser considerado, ao contrário do que se costuma dizer, um realista. Realista porque “revela, através da sua técnica de estranhamento, o estranhamento encoberto da vida cotidiana (...) Seu ‘desfiguramento’ fixa” (ANDERS, 2007). O comportamento não previsível do protagonista, uma espécie de homem comum jogado dentro do filme, acaba por sugerir o quão “louca” é esta estrutura narrativa, o quão distante é da vida real, em seu pretenso realismo calcado em sua previsibilidade e repetição de estruturas. É a crença no realismo das convenções estabelecidas pelo cinema hegemônico que torna factível a série de repetições comportamentais que se multiplicam filme a filme, criando estruturas que poderiam ser compreendidas como arquetípicas, tal a naturalização de seu uso. Pois bem, ao desloucar o protagonista diante dessas estruturas, colocando-as à prova, Bang Bang mostra o quão artificial é este pretenso realismo. O “realismo” do cinema hegemônico é derrubado pela presença de um personagem “real”, mostrando a incompatibilidade entre a “arte” dos enlatados e a vida. Para estranhar a loucura de nossa perceção do mundo real como o mundo construído por Hollywood e pelo cinema hegemônico, povoa este cinema de estrutura “clássica” e banal com personagens “comuns”, cotidianos, reais, que não se encaixam em sua representação. A estrutura permanece a mesma do filme clássico, mas cada uma de suas sequências são (des)realizadas pela presença do banal, cotidiano. Essa quebra de reconhecimento cria um estranhamento entre público e obra. Gera desconforto porque as cenas se (des)realizam, não se concluem, se estendem mais do que o esperado, quebrando as convenções que foram tomadas por “naturais” pela banalização de seu uso. Torna visível o que para o público era a parte “invisível” da estrutura do filme. Neste sentido, o realismo dos personagens comuns revela a irrealidade do filme compreendido até então como “realista”. Mais uma vez lembramos a leitura de Anders sobre Kafka: “O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”. Pois ao tratar o horror com naturalidade, como “algo despojado de espanto”, revela que o que é mais terrível tornou-se natural. Assim o é com o cinema, absorvido como parte da vida, sem crítica ou reflexão. A arte, que teria a potência de desvelar o real, de apresentar uma outra forma de ver, torna-se ela mesma através do cinema a própria “alma” do mundo que deveria denunciar. Torna-se um instrumento de reificação dos mais potentes, internalizando no espectador uma visão de mundo que parece natural e imutável. Bang Bang compreende esta premissa e por isso coloca o cinema como personagem buscando “enquadrar” o seu protagonista em seu “desloucamento”. |
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| Bibliografia | ANDERS, Gunther. Kafka, prós e contras. São Paulo, Cosac Naify, 2007. |