ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Perspectivismo cinematográfico: pontos de partida e primeiros passos. |
|
| Autor | Guilherme Henrique Pereira Mariano |
|
| Resumo Expandido | A presente comunicação se propõe a apresentar os problemas iniciais e os avanços relativos ao projeto de pesquisa atualmente em desenvolvimento no PPGMM da UNICAMP. Nele, refletimos acerca das estéticas contemporâneas e suas materialidades, a partir de novos paradigmas ontológicos. Essas estéticas, abordadas recorrentemente por uma vertente teórica que põe a corporalidade no plano central através de um realismo sensório, conforme Vieira Jr. (2020), parecem acessar um aspecto “gasoso” da imagem, devido às frequentes menções a qualidades intangíveis feitas pela crítica e teoria cinematográficas. Tal conjuntura nos coloca diante da seguinte problemática: como essas estéticas contemporâneas, responsáveis por instigar o aumento do debate acerca da fisicalidade do corpo, podem, ao mesmo tempo, ser frequentemente associadas com aspectos que superam nossas capacidades perceptivas? Essa indagação sobre um possível acesso a algo além da fisicalidade do mundo também se mostrou como a intuição inicial da dissertação A metafísica da noite no cinema de fluxo (Mariano, 2023), em que as materialidades das paisagens noturnas do cinema de fluxo foram exploradas a partir da potência do “não-ser” (Bachelard, 2018) em conjunção com o pensamento filosófico de Bergson (1974). A essa base teórica, foi relacionada a concepção da experiência espectatorial como “uma tripla articulação entre os corpos filmados, o do espectador e o próprio corpo fílmico” (Vieira Jr., 2021, p. 36), fundamentada na ideia de uma visão corporificada e incorporada comum tanto ao espectador quanto ao próprio filme (Sobchack, 1992). No entanto, notou-se uma tendência adotada pelas recentes teorias do cinema do corpo que traz a percepção de uma certa lacuna a ser preenchida, a fim de alcançarmos um melhor entendimento sobre esses aspectos “supra”-físicos: apesar de passarem a ser devidamente considerados como parte fundamental da equação espectatorial, os afetos de origem puramente fílmica e imagética não são tão bem explorados quanto aqueles emanados e recebidos pelos nossos corpos espectatoriais, fazendo com que o triângulo de corpos (e de consciências), construído para basear a experiência fílmica, penda mais para o lado “antropomórfico do esquema” (Mariano, 2023, p. 81). Porém, tal fato não se dá por uma falta de consideração específica da teoria cinematográfica, mas sim porque as dificuldades são claras: se estamos presos à nossa experiência, como poderíamos ter sequer um vocabulário para tal debate? De onde partir? O perspectivismo multinaturalista, do antropólogo brasileiro Viveiros de Castro (2018), construído a partir da etnologia dos povos ameríndios, surge como uma alternativa por expandir a possibilidade da condição humana a entes não-humanos. No entanto, atentemos: nossa intenção com tal teoria não é pensarmos se a câmera/filme é ou não uma instância corporal “humana” e quais aspectos de uma coisa, que não vemos em nossas condições naturais e sociais, ela é capaz de nos revelar. Mas sim refletir e se aproximar das multiplicidades postas em jogo na experiência cinematográfica, nos moldes em que o autor estabelece, por exemplo, uma multiplicidade humano|jaguar, onde “[n]ão há, enfim, um x que seja sangue para uma espécie e cerveja para outra; há, desde o início, um sangue|cerveja que é uma das singularidades ou afecções características d[ess]a multiplicidade” (Viveiros de Castro, 2018, p. 67). Trata-se, então, de abordarmos a experiência fílmica proporcionada pela obra que selecionamos como o fio condutor desse debate, o filme Il buco (2021), de Michelangelo Frammartino, sob a ótica de um encontro entre dois Reais (absolutos, não relativos), em que nossa realidade espectatorial se encontra constantemente em choque com a realidade percebida pela perspectiva fílmica, criando tensões entre os limites do que se é apresentado pela imagem cinematográfica, tornando, assim, a própria imagem em um limite presença|representação. |
|
| Bibliografia | BACHELARD, G. A poética do devaneio. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018. |