ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Imaginando brechas: Elementos Afro-Surrealistas no Cinema Negro |
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| Autor | Mamô Silva Carmo |
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| Resumo Expandido | A proposta aqui é voltar o olhar para o cinema ficcional feito por pessoas negras e comparar o uso de elementos afro-surrealistas - elencados em três chaves: (1) Assombrológico; (2) Onírico; (3) Fragmentação - em filmes que tensionam a realidade ligada a questões raciais, pensando a imaginação como um exercício emancipatório para criar novas possibilidades de existência. Trabalharemos com os longas Nanny (2022); Atlantique (2019); M8- Quando a morte socorre a vida (2019); Candyman (2022), identificando e caracterizando os elementos afro-surrealistas, por exemplo: (1) nas presenças que assombram e por vezes possuem as personagens; (2) nos devaneios que vão se materializando e rompendo a linha do real; (3) nas fragmentações de identidades individuais que acabam se confundindo e se misturando com marcas de uma experiência coletiva que atravessa o corpo racializado. Voltamos o olhar para os momentos em que os filmes utilizam a linguagem cinematográfica para materializar esses elementos, não se tendo, portanto, a pretensão de analisar as obras por completo. O Afro-Surrealismo surge como um movimento que volta o protagonismo para pessoas negras e grupos minorizados. Não há uma conceituação fechada sobre ele ou uma definição epistemológica estrita do termo. Marcado pela pela publicação do “Manifesto Afro-Surreal”, de D. Scott Miller, em 2009, é um movimento que para além de estético tem cunho político. A proposta do Afro-Surrealismo não é limitada a pessoas negras. No próprio Manifesto, Miller declara que os afro-surrealistas são ambíguos e menciona também asiáticos, latinos, mulheres e pessoas queer, porque somente através da fusão e da troca poderá haver esperança de libertação. Para fins de recorte, nessa pesquisa interessa o Afro-Surrealismo como uma forma de escancarar a surrealidade que caracteriza existir enquanto sujeito negro em um mundo anti-negro. É trazer essa experiência para o centro tensionando a ideia de realidade porque para sobreviver nesse contexto, brechas e fugas precisam ser criadas para gerar possibilidade. Quando Kilomba (2020) discute o processo de “outrorização”, refere-se a projeções perpetradas pela branquitude sobre sujeitos negros, colocando-os como encarnação de tabus e de tudo aquilo a que o sujeito branco não quer ser relacionado. Dessa forma, o sujeito branco, a partir de uma ficcionalização, escolhe vivenciar apenas o que considera positivo, opondo-se ao Outro, atribuindo-lhe tudo o que considera negativo e desumano. A negação e projeção citadas por Kilomba começam a se formar no processo dos primeiros contatos de navegadores europeus com povos indígenas e africanos que culmina na desumanização do corpo e da subjetividade negra, na tríplice destituição da escravidão transatlântica apontada por Mbembe (2016). Desta maneira, criam-se sujeitos incompletos, porque se, socialmente, resta ao sujeito negro viver o papel de Outro, ele é limitado. A ele é negada inclusive a ideia de possibilidade, da criação de brechas e fluxos que permitam uma existência fora dos estereótipos racistas. A problemática relação cinema, raça e representação já foi explorada por vários pensadores (hooks, 2019; Bueno, 2020; Hall, 2016; Fanon, 2008; Carvalho e Domingues, 2018; Barros e Freitas, 2018; Freitas e Messias, 2018). A forma como o negro foi historicamente representado no cinema diz sobre a forma como ele foi concebido nesse imaginário social. A frustração do contato com representações contribui para os danos da percepção do sujeito negro sobre si e sobre o mundo. Coleman (2019) relata a experiência de assistir Jurassic World, o quanto foi aterrorizante e incômodo as mortes violentas e desnecessárias de pessoas negras ao longo do filme. Enquanto outros espectadores se divertiam com o desenrolar das crianças e dos dinossauros no filme, ela lidava com o luto. Isso causa um grande vácuo entre como o sujeito se vê e como é percebido na sociedade, criando a experiencia surreal que é ser negro em um mundo anti-negritude. |
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| Bibliografia | BARROS, L. M.; FREITAS, K.. Experiência estética, alteridade e fabulação no cinema negro. Revista ECO-PÓS, vol. 21, n.3: 97-121, 2018. |