ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | "A filha do demônio" (1997) e o ovo da serpente: política, mídia e religião |
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| Autor | Tiago José Lemos Monteiro |
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| Resumo Expandido | O anseio global ante uma possível reencarnação do Anticristo e/ou manifestações demoníacas sob a forma de possessão pode ser agrupado em torno de três grandes ciclos audiovisuais: o primeiro, e talvez mais célebre no que se refere tanto ao estatuto quase canônico das obras produzidos quanto do extenso volume de títulos que gerou, compreende o arco entre 1968 (data de lançamento de Rosemary's baby) e 1976 (quando chega às telas The Omen), também englobando o fenômeno de The exorcist e seus incontáveis derivados/similares. O segundo ciclo data de meados dos anos 1980, e teve nas reverberações junto à imprensa da época a sua faceta mais visível, como um sintoma daquilo que ficou conhecido como satanic panic - equação sensacionalista que articulava heavy metal, role playing games, tabuleiros ouija e ócio juvenil como evidências de uma suposta conspiração demoníaca para corromper as mentes inocentes. O output audiovisual deste segundo ciclo está longe de deter a mesma legitimidade da década anterior, dele fazendo parte longas-metragens como Trick or Treat (1986), The believers (1987), Spellbinder (1988) e Atração satânica (1989)- este último, dirigido pelo paulistano Fauzi Mansur, ainda que falado em língua inglesa. O terceiro ciclo coincide com a chegada do terceiro milênio e o temor acerca do cumprimento de antigas profecias que previam o final dos tempos e a segunda vinda de Cristo, antecedida por um breve reinado de seu maior opositor. Após um lustro praticamente ausente das telas, o Demônio regressa à ordem do dia em filmes como The Devil's Advocate (1997), End of days (1999), Lost souls (2000) e a franquia The Prophecy (1995/1998/2000/2005). No Brasil, cujo legado histórico do catolicismo curiosamente parece ter freado representações mais frontais do Demônio e suas hordes pelo audiovisual, foi pelas mãos de uma emissora de TV aberta vinculada de forma explícita a uma instituição religiosa protestante neo-pentecostal - respectivamente, a Rede Record de Televisão e a Igreja Universal do Reino de Deus - que surgiu a contribuição mais instigante a este filão. Homem em sérias dificuldades financeiras vende a alma de sua filha para o Demônio, em troca de uma quantia exorbitante de dinheiro que o permite desfrutar de uma vida de excessos. Quinze anos depois, a (agora) jovem se sente deslocada de seus pares, ao mesmo tempo em que lamenta a ausência da mãe e o afastamento do pai, enveredando pelo caminho do vício em entorpecentes e do sexo desregrado. Ao descobrir detalhes sobre seu passado, encontra uma derradeira oportunidade de redenção. Esta é a sinopse de A filha do demônio, minissérie em cinco episódios levada ao ar pela Record entre 3 e 7 de março de 1997. Escrita por Ronaldo Ciambroni e dirigida por Atílio Riccó, a obra detém o (questionável) mérito de assinalar o retorno da emissora ao setor de teledramaturgia após um hiato de duas décadas. Virtualmente ignorada à época de seu lançamento, sendo inclusive tratada de forma jocosa pelos poucos críticos que se dispuseram a assisti-la, cerca de 30 anos depois é possível reenquadrar A filha do demônio sob outro prisma: como a gênese de um projeto de poder que, ao longo dos anos 2000 e 2010, teria desdobramentos nos campos político, econômico e sociocultural do país. Neste sentido, podemos tecer uma trama que conecta a incursão dramatúrgica da Record pelas searas do satanismo feita em 1997 a episódios recentes da história do Brasil, como o fortalecimento de setores conservadores no que diz respeito a certas pautas sociais, culturais e identitárias; a proliferação de denominações religiosas neo-pentescostais frente a um recuo da centralidade do catolicismo; e mesmo a disputa pela hegemonia no terreno televisivo, midiático e audiovisual, outrora dominado pela Rede Globo e que, hoje, encontra na Record e suas novelas bíblico-religiosas uma significativa concorrência em termos de público. |
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| Bibliografia | BARBIERI, Rafaela Arienti. God help you when the devil wants you: uma história social do horror satânico no cinema estadunidense. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2024. |