ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Narrativas em transição: estratégias do melodrama brasileiro no streaming |
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| Autor | Bruna Sant Ana Aucar |
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| Resumo Expandido | Este trabalho analisa a transição da telenovela brasileira para o ambiente das plataformas de streaming, tendo como estudo de caso a obra Beleza Fatal (2025), primeira produção original do gênero realizada pela Max no Brasil. A telenovela, formato preponderante do audiovisual brasileiro, é reposicionada nesse novo ecossistema midiático, que articula algoritmos, segmentação de audiência e circulação global. O estudo busca entender como o melodrama tradicional é adaptado para um novo formato de distribuição e quais as implicações simbólicas, estéticas, de consumo e de negócios envolvidas. Apesar de seu enorme alcance e influência no Brasil, o formato enfrentou resistência quanto à sua legitimidade cultural, por estar historicamente vinculado à televisão aberta e associado ao gosto popular, feminino e doméstico (Machado, 2000). Interpretado como narrativa repetitiva e sentimental, o folhetim eletrônico foi marginalizado pelos circuitos de prestígio intelectual e artístico, em contraste com o cinema, considerado mais autoral e erudito. No entanto, estudos como os de Martín-Barbero (2001), Lopes (2003) e Hamburger (2011) destacam justamente a força simbólica da telenovela na articulação entre cultura de massa e práticas populares, funcionando como espaço de negociação de valores sociais e afetivos. A partir do final dos anos 1960, a introdução de temas políticos e tramas mais complexas por autores como Janete Clair e Dias Gomes ajudou a transformar a percepção do gênero, ampliando seu público e seu papel como forma de reflexão social e construção da identidade nacional (Ortiz, 2001). A despeito do preconceito elitista, a telenovela brasileira consolidou-se como um dos pilares da cultura midiática nacional ao dialogar profundamente com as experiências sociais do público e resistir ao imperialismo cultural estadunidense, sobretudo nas décadas de 1960-1970. Straubhaar et al (2021) defende que esse enraizamento foi impulsionado pela capacidade de refletir códigos culturais locais, o que, segundo a teoria da “proximidade cultural”, explica a preferência de produtos locais frente a conteúdos estrangeiros. Com o avanço do streaming, o formato passa por uma reconfiguração: associado a práticas culturais de prestígio, ganha nova visibilidade por meio de plataformas como a Max, que reposicionam o melodrama entre o popular e o sofisticado (Lopes, 2024). Contudo, essa inserção global vem acompanhada de precarizações no mercado de trabalho audiovisual, ainda que encobertas por discursos de liberdade criativa e reconhecimento simbólico promovidos tanto pelas plataformas quanto pelos profissionais envolvidos. A pesquisa utiliza uma abordagem qualitativa e transdisciplinar – que combina análise narrativa, entrevistas com criadores e materiais jornalísticos – para mostrar como Beleza Fatal representa uma tentativa deliberada de conciliar a tradição melodramática nacional com as exigências estéticas e narrativas do consumo sob demanda. Escrita por Raphael Montes, dirigida por Maria de Medicis e supervisionada por Silvio de Abreu, a obra mantém estruturas clássicas da telenovela – como personagens arquetípicos, reviravoltas e sentimentalismo – ao mesmo tempo em que adota uma estética mais sombria e cinematográfica, ritmo ágil e formato enxuto (40 episódios). A narrativa de vingança da protagonista é marcada por estratégias típicas do streaming, como cliffhangers e binge-watching, além de permitir escolhas de visualização personalizadas (Buonnano, 2019). A distribuição em blocos semanais de cinco episódios busca equilibrar o modelo de maratona com o engajamento contínuo da TV aberta. A ambientação mistura subúrbios idealizados e espaços urbanos refinados, compondo um cenário híbrido com apelo local e potencial internacional. Essa “glocalização” (Robertson, 1995), no entanto, carrega tensões: a novela precisa dialogar com algoritmos e lógicas globais sem romper com os afetos e códigos culturais locais que sustentam sua legitimidade no Brasil. |
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| Bibliografia | BUONANNO, Milly. Serialidade: continuidade e ruptura no ambiente midiático e cultural contemporâneo. Matrizes, v.13, nº 3, set./dez., p. 37-58, 2019. |