ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A criação sonora dos filmes A mesma parte de um homem e O sol das mariposas |
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| Autor | Débora Regina Opolski |
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| Resumo Expandido | As trilhas sonoras dos filmes A mesma parte de um homem (Ana Johann, 2021) e O sol das mariposas (Fábio Allon, 2024) possibilitam pensar os sons como mediadores entre os seres humanos e não humanos, entre os lugares e as relações que se estabelecem nesses lugares. Os sons destes filmes materializam o lugar, produzem e rememoram sentidos e afetos. Porém, não o fazem por conterem características singulares, mas sim, por apresentarem características comuns, compartilhadas e cotidianas em essência. Utilizando uma abordagem de análise de processo de criação artística (SALLES, 2004), abordaremos os sons ambientes (backgrounds) e os sons produzidos pelos personagens (Foley) para apresentar uma reflexão sobre a relação entre a trilha sonora e a narrativa, ao indicar de que modo as sonoridades materializam os acontecimentos, estabelecem as relações e criam as realidades dos personagens nos espaços. Pesquisadores como Galetto (2021) e Carreiro (2024), afirmam que os sons ambientes são determinantes para constituir o espaço geográfico e manter a verossimilhança da diegese. Porém, considerando os personagens como agentes ativos no espaço, também é possível e interessante, durante o processo de criação, estabelecer relações entre os sons ambientes e os personagens. No caso de A mesma parte de um homem, o ambiente é opressor e as sonoridades do campo aumentam a tensão que permeia as relações. Renata tem uma relação de simbiose com um pássaro, que sonoramente se destaca em duas cenas emblemáticas para a narrativa. Já os sons de Foley materializam a brutalidade das ações. Quase todo o filme se passa em uma casa na área rural. Logo os sons que acompanham as pessoas, os objetos manipulados e os movimentos são sonoramente característicos desses lugares e do modo como elas interagem com os mesmos. As louças não são refinadas. São grosseiras e bastante desgastadas pelo uso. Os passos e movimentos são “duros” ou bruscos, comuns em cotidianos de trabalhos braçais. É nesse universo sonoro que o personagem Lui, o estranho, passa a viver, quando chega na casa, na segunda parte da narrativa. Porém, seu andar, seus gestos e movimentos são suaves e delicados. Lui é um estranho nesse contexto, e o som cria a narrativa. Em O sol das Mariposas também temos uma narrativa dividida em duas grandes partes. Da mesma forma que no filme anterior, os sons de Foley são "duros” e bruscos, gerando uma aspereza para as relações. Mas, apesar do contexto de dificuldade da lida no campo, as sonoridades de grilos, pássaros e cigarras (as mesmas do filme anterior), não são opressoras. Pelo contrário, evocam uma atmosfera bucólica e contemplativa, criando uma conexão sensorial com o ambiente rural. Na primeira parte da história, a presença dos sons ambientes reforça a ideia de que a vida naquele local é boa e de que o ambiente é acolhedor, apesar da luta diária para gerar dinheiro no sítio. Na segunda parte da narrativa, contudo, com o retorno do proprietário do sítio – marido de Marta – impondo sua vontade por meio da violência e do uso da força, os sons ambientes naturais são gradualmente substituídos por sons sintetizados, desprovidos de vitalidade e essência. Esse deslocamento sonoro reflete a transformação do espaço, que deixa de ser um ambiente confortável. Nestes filmes, o Foley e os sons ambientes moldam as relações e constituem o lugar. Ambos criam sentidos e movem os afetos das relações entre os personagens e os espaços de forma narrativa. Nesse sentido, queremos demonstrar que os filmes A mesma parte de um homem e O sol das mariposas são resultado de um processo de criação artística sonora que propulsiona a narrativa na medida em que os sons se tornam agentes, movimentando e materializando as ações e as relações dos personagens na diegese e no espaço. |
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| Bibliografia | A MESMA PARTE DE UM HOMEM. Direção: Ana Johann. Produção: Grafo Audiovisual, 2021. 98 min. |