ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Entre o terror e a crítica social - Uma análise da direção de arte em Propriedade |
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| Autor | Sabrina Tenório Luna da Silva |
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| Resumo Expandido | Neste artigo, pretendemos analisar aspectos da direção de arte em Propriedade (Dir. Daniel Bandeira, 2022, 1h40min). O filme, realizado no estado de Pernambuco, tem direção de arte de Maíra Mesquita, figurino de Andrea Monteiro e caracterização e maquiagem de efeitos especiais de Tayce Vale. A ideia para a realização de Propriedade surgiu em 2006, quando o diretor se fixou na imagem de uma pessoa dentro de um carro blindado, que não conseguia ser vista do lado de fora. O projeto, que até então tinha o título de Propriedade Privada, foi aprovado no edital de 2011/12 do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura). As filmagens ocorreram em 2018, na Fazenda Morim, em São José da Coroa Grande, município de Pernambuco, e na cidade de Recife. A narrativa gira em torno da estilista Teresa, que, traumatizada por um caso de violência urbana, viaja junto ao marido para a Fazenda Cavalcanti, de propriedade da família. Para a viagem, o marido compra um carro preto que é logo em seguida blindado e conta com computador de bordo. Na fazenda, percebemos uma relação entre o antigo e o contemporâneo, sendo o antigo representado pela arquitetura do local, que separa os funcionários da casa principal, pelos móveis em madeira pesada e pela presença de fotos antigas emolduradas. O contemporâneo é representado principalmente por objetos tecnológicos, entre eles a televisão de tela plana que ocupa o centro da sala, os aparelhos de celular e os dispositivos que os conectam à internet, além do carro que leva o casal ao local. No campo da fotografia, a conexão com objetos tecnológicos também pode ser percebida através da imagem de tela de celular que é exibida no início do filme e das imagens capturadas por câmeras de segurança na fazenda. Dessa forma, os espaços pictórico e arquitetural do cinema (ROHMER, 1977) utilizam elementos que se fortalecem. De acordo com Baudrillard, a coexistência de objetos modernos funcionais com uma decoração antiga “só aparece evidentemente num determinado estágio de desenvolvimento econômico, de produção industrial e de saturação prática do meio ambiente” (BAUDRILLARD, 2012, p. 90). Essa saturação é representada tanto pela presença dos objetos tecnológicos quanto pela iminente mudança de função da propriedade rural, causa detonadora do conflito entre os donos da fazenda e os funcionários, que trabalham em um sistema análogo à escravidão. No filme de terror, que apresenta uma análise crítica da desigualdade social no Brasil, o carro blindado adquire um aspecto narrativo que, junto a outros elementos, aponta para o choque entre esses dois sistemas. Após a deflagração do conflito, o carro se torna o refúgio de Teresa, que não consegue, a princípio, fazê-lo funcionar, pois não lembra do comando de voz definido pelo marido. Dessa forma, ela perde momentaneamente o controle do automóvel, que é privado de sua função principal, a locomoção. A funcionalidade de objetos inteligentes como o carro, que conta com computador de bordo operado por comando de voz, depende também do aprendizado e da adaptação do humano ao universo maquínico. Esse aprendizado vai avançando no decorrer do filme, enquanto a personagem e o automóvel entram em choque com o mundo antigo representado pelos funcionários da fazenda, pelos animais utilizados para o transporte e por toda uma forma de funcionamento social. A impenetrabilidade do carro, mesmo quando o seu sistema vai entrando em colapso, apresenta um ponto forte de debate, estando em confluência com a imagem pensada pelo diretor antes do desenvolvimento do argumento. Dessa forma, pretendemos analisar esses e outros elementos da direção de arte, destacando também a sua relação com o gênero de terror. Esses aspectos podem ser percebidos de forma mais evidente na maquiagem e nos efeitos utilizados em cenas específicas, destacando-se do conceito geral marcado por premissas realistas no que diz respeito às escolhas de objetos, figurino e maquiagem. |
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| Bibliografia | BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2012. |