ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Corpos sem lastro: uma história de Taipei |
|
| Autor | Luiz Afonso Morêda |
|
| Resumo Expandido | Um homem retorna para casa após uma noite na qual perdeu tudo, inclusive seu carro. Ele anda em uma estrada vazia. Um táxi passa por ele, mas ignora os seus gritos e chamados. O homem corre atrás do táxi, que segue impassível e então, um corte: passamos para um plano em que a câmera está acoplada ao carro em movimento e que enquadra o rapaz correndo — ele persegue, dessa forma, o carro e a câmera ao mesmo tempo. A tomada segue por um tempo, o veículo em movimento, o homem cada vez menor no quadro, pois a câmera se distanciou, até que o táxi vira a esquina e esse homem desaparece no plano; ele é abandonado na estrada — pelo carro, pelo filme. A cena é de História de Taipei (1985), de Edward Yang, cineasta de Taiwan e um dos fundadores do movimento Novo Cinema Taiwanês, e expõe a dupla natureza do filme. O corpo errante que persegue o carro/câmera possui uma dualidade. Ele é, de uma só vez, um homem desesperado para chegar em casa, abandonado por um carro, e também uma efígie, um fantasma, aprisionado nos limites do quadro do filme, abandonado pela câmera, e que a persegue em busca de uma saída. Ao colar o ponto de vista da câmera ao carro e abandonar o personagem, Yang produz uma quebra dentro da proposta naturalista do filme. O que até então apresentava uma visão de cinema calcada em um ilusionismo, que parecia confiar no caráter ontológico da imagem cinematográfica — que os corpos representados guardam algo de seus modelos originais e devem ser analisados a partir das propriedades desses modelos, os corpos orgânicos — agora se mostra uma noção insuficiente de dar conta do que o filme apresenta. É preciso pontuar que a partir dos anos 80 o cinema atravessava uma nova crise, ao que uma parcela da crítica atribuiu ao fim do cinema moderno e um esgotamento, uma dificuldade de representação. Assim, passa-se a produzir corpos que perderam seu lastro, isto é, filmes que convidam um outro olhar sobre os corpos que representam, que desafiam as noções da representação mimética e apresentam possibilidades do cinema trabalhar a representação dos corpos à sua própria maneira, com sua propensão à alegoria, invenções figurativas e capacidade de previsão. Com efeito, o homem da estrada, Lung é o nome dele, mais tarde no filme será morto na mesma estrada, em uma cena semelhante. No entanto, após mostrar o personagem sendo ignorado pelo táxi — seria ele já um fantasma? —, Yang nos mostra a namorada de Lung, a protagonista do filme, indo à praia com amigos, momento peculiar em uma obra que se passa inteira em Taipei. O corpo efetivo de Lung não morreu ao ser ignorado pelo táxi, mas fora da chave do ilusionismo as possibilidades são outras. Ele é também um fantasma, que terá mais quatro encontros no resto do filme, dois com personagens do seu passado, ambos embriagados a lembrar de histórias — confessá-las a um fantasma —, um com sua namorada, no escuro de um apartamento, e um último com o seu assassino, também ele um corpo fantasmático, mudo. Considerado menos como corpo e mais como efígie, Lung é um fantasma cujo abandono na estrada prefigura sua morte. Esse entendimento, corroborado pelo estado do cinema na década de 80, apresenta uma resposta ao esgotamento com o qual os cineastas lidavam, bem como aponta questões quando colocado em relação ao contexto cultural de Taiwan à época. Enquanto diversos cineastas de diferentes lugares da Ásia voltavam com a ênfase no real, no redescobrimento da epiderme do mundo, como uma espécie de retorno a Lumière, Edward Yang propôs um outro cinema, cuja qualidade da presença dos corpos representados contém algo de especial. Assim, procura-se entender a dupla natureza da representação do corpo em História de Taipei, quais possibilidades residem abaixo da camada aparente da diegese. Ao assumir o corpo de um dos personagens como fantasmático mais do que real, investiga-se como isso dialoga com o esgotamento dos anos 80, bem como entender a repercussão do contexto cultural de Taipei nesta análise. |
|
| Bibliografia | BOUQUET, Stéphane. Plan contre flux. Cahiers du Cinéma, nº 566, dezembro de 1996. |