ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | O cinema de língua alemã e as imagens dos povos originários da Amazônia |
|
| Autor | Johannes Kretschmer |
|
| Resumo Expandido | Com a crescente industrialização no século XIX se intensifica o fascínio alemão pela "natureza pura” (fascínio que se estende ao movimento ecológico atual). Na imagem da terra pura e intocada, os indígenas seriam supostamente as pessoas mais livres e autodeterminadas: o “entusiasmo pelo indígena” (como diz Hartmut Lutz) marca a literatura (Karl May, entre outros) e o cinema de língua alemã. Um dos ideais do romantismo é a Waldeinsamkeit, a “solidão na floresta”. Em uma série de passagens no seu diário "Conquista do inútil" acerca do filme "Fitzcarraldo", Werner Herzog se refere de alguma forma a esta solidão, sendo a floresta em questão a Amazônia. "Fitzcarraldo" é um marco do cinema - quem não se lembra do barco a vapor sendo transportado morro acima? Uma cena antológica que o cineasta considera uma metáfora central para o filme. Já o que ela significa - conforme sua autobiografia há pouco lançada no Brasil ("Cada um por si e Deus contra todos") - Herzog afirma não saber… Seja como for, pode-se constatar com Will Lehmann uma transformação das imagens dos povos originários em geral no cinema de Herzog. O cineasta, no entanto, continuaria adotando o ideal do “índio autêntico” em favor de uma narração de uma “verdade maior” (obsessão de Herzog nos últimos tempos), que sem dúvida atende sobretudo a anseios ocidentais de tempo e história. Em "A outra pátria. Crônica de um desejo" (2013), Werner Herzog atua como Alexander von Humboldt, contracenando com Edgar Reitz, autor deste filme e outro integrante do movimento do Novo cinema alemão. "A outra pátria" é uma instigante reflexão sobre os motivos da migração e sobre a força e a riqueza da imaginação humana como princípio central da construção de pertencimento a uma comunidade. Nesta obra é descrita a situação de uma aldeia alemã em 1843; seus moradores são dominados por fome, pobreza e pelo regime ditatorial prussiano, e sonham em emigrar para o Brasil. O protagonista principal do filme estuda uma língua indígena brasileira, lê a bibliografia então disponível sobre o Brasil (sobretudo textos de cientistas como Martius, Humboldt e viajantes franceses), e sonha viver com os “índios" na Amazônia. Edgar Reitz descobriu um dia que parte de sua família migrou para o sul do Brasil no século XIX. Um outro motivo que o estimulou a fazer o filme é o fato de o seu irmão Guido ter se dedicado ao estudo de línguas, entre elas línguas indígenas do Brasil como o Guarani. Um terceiro motivo era descobrir o que os alemães no século XIX sabiam sobre os países aos quais emigravam, como os Estados Unidos e o Brasil, ou seja, quais eram as imagens e representações destes países? Edgar Reitz é um dos mais inovadores cineastas do Novo cinema alemão e conhecido sobretudo por sua trilogia “Heimat” ("Pátria") - três filmes de duração épica, exibidos em uma série de capítulos na televisão alemã e também em cinemas brasileiros, nos anos 80, 90 e 2000. Mas Reitz ainda não teve no Brasil a atenção que merece. Prova disso é o fato de seu filme "A outra pátria. Crônica de um desejo" (2013) - sem dúvida o melhor filme de língua alemã já feito sobre a emigração para o Brasil - até hoje não estrear em nenhum cinema no país. A partir dos filmes mencionados pretendo analisar como a produção cinematográfica de língua alemã (des)constrói a visão das culturas dos povos originários no Brasil. Uma das questões a serem abordadas será o uso de artifícios por parte de Reitz: a língua indígena tematizada, bem como os títulos de livros sobre o Brasil no seu filme são inventados, reforçando o caráter ficcional da obra. Ademais vou tentar recuperar a experiência do antropólogo Koch-Grünberg que foi provavelmente o primeiro a captar imagens em movimento na Amazônia e a mostrá-las na Alemanha. Sua intenção principal era aproveitar a crescente popularidade do cinema para divulgar suas pesquisas sobre a Amazônia e investir em um mercado em expansão. |
|
| Bibliografia | Flinn, Caryl. The New German Cinema: Music, History, and the Matter of Style. Berkeley: University of California Press, 2004 |