ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Trabalho, barbárie e espaço racionalizado em O Iluminado, de Stanley Kubrick |
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| Autor | Eduardo de Faria Carniel |
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| Resumo Expandido | Esta comunicação propõe uma leitura do filme O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, a partir da organização espacial e econômica do seu espaço central, o Hotel Overlook. Buscaremos não apenas situá-lo como um cenário sobrenatural, mas como uma estrutura material de racionalização do trabalho. Ao contrário de outros filmes de horror da década de 1970, onde o elemento propriamente aterrorizante é combatido, no desfecho, por personagens estabilizadores representantes de instituições sociais, O Iluminado embaralha os papéis narrativos típicos desse esquema, colocando a própria família - e, mais especificamente, o pai trabalhador - como fonte de ameaça. O hotel, muitas vezes lido como uma entidade sobrenatural, é aqui compreendido como uma figura cuja atração sobre o enredo e os personagens é de natureza fundamentalmente econômica. A permanência do protagonista Jack Torrance se sustenta por um vínculo de trabalho que, ao se aprofundar, revela a internalização de uma ideologia de obediência e lealdade ao patrão. A figura do gerente Ullman é analisada como representação de um tipo de profissionalização surgida na virada do século XX (momento de fundação do Overlook no enredo), que opera com base na ocultação dos trabalhadores e na estética de controle. Sua função como personagem, que inclui o papel de “narrador” do hotel, é marcada por uma lógica racionalizante que relativiza tanto a violência histórica (como a origem do hotel em terras indígenas espoliadas) quanto a violência pessoal (como o assassinato cometido por um ex-funcionário). Ullman não vê essas violências como exceções ou absurdos, mas como elementos administráveis de uma estrutura empresarial. O nome “Overlook”, nesse sentido, carrega duplo sentido: supervisionar e desconsiderar. A análise contrasta o apagamento do trabalho de manutenção durante o funcionamento do hotel com sua súbita visibilidade no momento de encerramento da temporada, quando a presença do gerente ainda assim garante uma separação espacial entre trabalhadores e hóspedes. Quando essa mediação desaparece, o hotel revela sua mecânica, e sua dinâmica exige que Jack ocupe o papel de "cuidador", uma função que vai além da zeladoria física e alcança a de manutenção simbólica da ordem. O pai, ao sucumbir à loucura, não rompe com a lógica do Overlook - ao contrário, a radicaliza. Em cenas-chave, Jack justifica sua violência com base em princípios de responsabilidade profissional e fidelidade contratual, demonstrando que sua monstruosidade não é um rompimento com a ordem, mas uma consequência lógica dela. O filme, assim, utiliza o horror para expor as tensões da alienação do trabalho moderno e os efeitos subjetivos da racionalização produtiva. A repetição da frase “Muito trabalho e nenhuma diversão fazem de Jack um garoto bobo” ganha sentido cognitivo: quanto mais moldado pelo trabalho, mais impotente e entorpecido o trabalhador se torna. A figura de Jack como monstro remete à criatura de Frankenstein, representando o colapso do humano diante das exigências desumanas da produtividade e do desenvolvimento econômico. Ao final, O Iluminado revela não apenas uma história de assombração, mas uma alegoria sobre as violências estruturais da modernidade capitalista, que moldam os sujeitos ao ponto da destruição - não por possessão sobrenatural, mas por coerência econômica. |
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| Bibliografia | BENIGER, J. R. The control revolution: technological and economic origins of the information society. Cambridge: Harvard University Press, 1986, 508 p. |