ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Filmar fantasmas: fabulação e fantasmagoria em “Toshi Voltou do Japão” |
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| Autor | Marcos Vinicius Yoshisaki |
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| Resumo Expandido | “Toshi voltou do Japão” é um projeto de longa-metragem documental, de caráter experimental, que dirijo e roteirizo e que atualmente está em fase de desenvolvimento. O filme acompanha a trajetória de Toshi, meu tio paterno, focando em sua experiência como imigrante no Japão a partir de 1990, dentro do movimento decasségui (KAWAMURA, 1999), e seu retorno ao Brasil quatro anos depois, após o desenvolvimento de transtornos mentais posteriormente diagnosticados como esquizofrenia. Entre internações em hospitais psiquiátricos e o uso diário de medicações controladas, Toshi viveu quase metade da vida sob o estigma e as limitações impostas por sua condição psíquica, até sua morte em 2022, aos 60 anos. Nunca voltou a trabalhar, não se casou, não teve filhos e manteve relações afetivas restritas ao núcleo familiar. Mesmo dentro da família – sendo o caçula de cinco irmãos – as memórias sobre ele são dispersas e fragmentadas. Sua presença foi se apagando gradativamente, tornando-se uma espécie de fantasma em vida. Após sua morte, ele teria se tornado, então, o fantasma de um fantasma? Essa é a questão central do filme: como contar a história de alguém sobre quem se sabe tão pouco? Com sua morte, suas motivações, desejos e perspectivas se perderam definitivamente. Restam apenas fragmentos dispersos, estilhaços de memória preservados por suas três irmãs e seu irmão. Diante dessa ausência, o filme assume o vazio como matéria de criação. Para isso, um ou mais atores são convocados para experimentar, em cena, diferentes possibilidades do que seria a figura espectral de Toshi. Essa abordagem não busca cristalizar sua imagem – como em reencenações tradicionais – mas explorar formas de existências fabulares, abrindo espaço para outras possibilidades de presença. Essa proposta se expande ao incorporar as experiências de outros homens nipo-brasileiros da geração de Toshi, muitos dos quais enfrentaram a dureza da imigração e problemas de saúde mental em silêncio. Sem acesso a suporte psicológico adequado, devido à sua condição de imigrantes, suas histórias permaneceram invisíveis. Nesse sentido, o fantasma de Toshi não é apenas individual, mas coletivo – uma representação das dores e apagamentos de uma geração de trabalhadores (GALIMBERTTI, 2002). O projeto se insere no campo da Pesquisa em Arte (BORGDORFF, 2008), pois a investigação se dá no próprio processo de criação do filme. O desenvolvimento da pesquisa e a realização do filme caminham juntas: enquanto a pesquisa orienta as escolhas artísticas, estas, por sua vez, desafiam e reconfiguram o percurso da investigação. Essa dinâmica propõe um diálogo entre diferentes regimes de conhecimento e sensibilidade. Já a apresentação explora como a fabulação é construída no filme, em diálogo com a noção de fantasmagoria. Seguindo Jacques Rancière (2009), a fabulação não se opõe ao real nem é mera invenção arbitrária, mas uma forma de reorganizar o sensível – deslocando narrativas dominantes e dando existência a realidades silenciadas. No caso de “Toshi voltou do Japão”, a fabulação emerge não apenas das lacunas deixadas por sua trajetória, mas de um conjunto de elementos que dialogam diretamente com a ideia de fantasmagoria. O filme se aproxima da concepção de assombração desenvolvida por Avery Gordon (2008), que aponta como traumas e violências históricas permanecem no presente, manifestando-se por meio de afetos e sensações que transcendem a racionalidade. Diante desse campo de investigação, o projeto busca explorar formas de incorporar a fantasmagoria como recurso estético e discursivo na própria linguagem do filme, ao mobilizar e articular elementos como os sentimentos de culpa e arrependimento da família, a performance do ator, as imagens em VHS produzidas no Japão pelos imigrantes, os depoimentos anônimos de outros homens da geração de Toshi, e as instalações abandonadas onde funcionava o hospital psiquiátrico em que Toshi esteve internado. |
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| Bibliografia | BORGDORFF, Henk. The conflict of the faculties: Perspectives on artistic research and academia. Leiden, Netherlands: Leiden University Press, 2012. |