ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Linha de Montagem x Rede: caminhos poéticos para a IA Generativa |
|
| Autor | Marcelo Rodrigo Mingoti Müller |
|
| Resumo Expandido | Entre os anos 1910 e 1920, a indústria cinematográfica se consolidou sob um modelo de produção industrial fordista, caracterizado pela divisão do trabalho em etapas lineares e especializadas. Thompson (1985) destaca que, por volta dos anos 1920, os estúdios hollywoodianos já haviam estabelecido claramente uma divisão de trabalho organizada para maximizar eficiência e previsibilidade. Caldwell (2008) observa que essa estrutura industrial clássica prevalece até hoje, mesmo diante de tecnologias digitais que poderiam oferecer alternativas. Em contraposição à linearidade do processo de realização industrial, Salles descreve a criação artística como rede, em que a “simultaneidade de ações, ausência de hierarquia, não linearidade e intenso estabelecimento de nexos” (2006) presentes na construção da obra, evidencia um conflito entre a necessidade industrial de organizar a produção e as características intrínsecas dos processos de criação. Esse atrito, condicionado a questões práticas óbvias como a necessidade de filmar antes de editar, pode organizar-se de outras formas a partir das possibilidades poéticas do uso da Inteligência Artificial (IA) generativa na produção audiovisual. Assim como as redes de criação, as redes neurais que também operam a partir de conexões e do processamento paralelo de uma imensa quantidade de elementos, substituindo a precisão lógica da linearidade pela probabilidade (Boden, 2016). Na prática da criação, a IA generativa possibilita ao artista que, simultaneamente e utilizando a mesma máquina, escreva, gere imagens, sons, músicas, vozes e falas enquanto edita, seleciona e refaz o material a partir do que vê e ouve. Assim, a criação de um filme tem a possibilidade de libertar-se da rigidez das etapas sequenciais da produção industrial e tornar-se um fluxo contínuo, iterativo, exploratório e multimodal em rede. Essa abordagem nos aproxima da forma como Boden descreve a criação no cérebro humano, com diversos elementos processados ao mesmo tempo, favorecendo a invenção por associação, recombinação e transformação (idem), potencializando a ocorrência de ações simultâneas, intervenções retroativas, reaproveitamento de material, tendências e acasos (Salles, 2006). Essa prática processual, não voltada para o produto final desde o início, possibilita a criação transversal: imagens nascem de sons, textos geram sequências visuais, referências culturais viram roteiros provisórios e, principalmente, a construção da obra ocorre no gerúndio: está sendo feita, está sendo testada, está sendo pensada. Na perspectiva inspirada por Boden e Salles, podemos pensar o cinema não mais como uma linha de montagem, mas como um campo de forças, conexões e movimentos simultâneos, onde a inteligência (humana e artificial) é ativada em tempo real para compor o sensível. Esse estudo também considera que o computador deixou de ser apenas uma estação técnica de edição para tornar-se o centro da criação audiovisual em rede, de tal forma que a IA generativa aprofunda o deslocamento proposto por Manovich (2001) ao identificar que, com a digitalização, a câmera perde sua função central na realização ao transformar o artista em um programador que edita e gera conteúdo simultaneamente. Segundo Grau (2003), o computador é um aparato que transforma a concepção do artista através de um diálogo contínuo e por isso deve ser considerado como uma “thinktool", que estabelece um processo que permite retificação de erros, duplicação, geração aleatória e recombinações, feedback contínuo e reversibilidade a partir de um amplo repertório de opções disponíveis. Nesse contexto, a prática cinematográfica mediada pela IA generativa abre caminhos para a invenção de poéticas baseadas no diálogo entre o artista e as possibilidades oferecidas pela máquina, em um processo de montagem viva e contínua, em que o filme não se realiza em etapas estanques, mas permanece aberto e em constante reformulação. |
|
| Bibliografia | BODEN, Margaret. A mente criativa: mitos e mecanismos. Tradução de Jeferson Luiz Camargo. Porto Alegre: Penso, 2016. |