ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Quando falo de mim estou dizendo de nós: relatos de si sapatão no cinema contemporâneo brasileiro |
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| Autor | Luiza Nascimento |
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| Resumo Expandido | O conceito de relatos de si, conforme proposto pela filósofa Judith Butler, emerge como fundamental para a compreensão de como os indivíduos constroem suas identidades em contextos sociais que frequentemente impõem categorias rígidas e normativas de gênero e sexualidade. Para Butler, esses relatos se desenvolvem na interação com a alteridade, ou seja, a identidade é sempre moldada em relação à sociedade cisheteronormativa, branca e patriarcal, que perpetua construções opressivas. Ao expressarem suas próprias existências e narrativas, pessoas que se dissociam desse (cis)tema opressor atuam como agentes de resistência, desafiando uma visão de mundo que marginaliza e invisibiliza essas diversas experiências. Essa prática não apenas reivindica espaço, mas também contribui para a ampliação do entendimento sobre a pluralidade das identidades, promovendo uma reflexão crítica sobre as normas sociais vigentes. No contexto dos curtas Trópicos de Capricórnio (2020) de Juliana Antunes e Rebu - A egolombra de uma sapatão (2019), as diretoras, criam relatos de si cinematográficos a partir de imagens de arquivo da infância, adolescência e início da fase adulta que são costuradas na montagem junto a narrativas pessoais em voz off. Em Trópicos, Juliana, uma mulher branca, nos mostra, através de vídeos caseiros, e elaborações em voz off, memórias de uma infância sapatão solitária, marcada por ser uma criança gorda e fora dos padrões de feminilidade sem nenhuma referência queer em uma cidade do interior de Minas Gerais. Ao passo que, Rebu, é um passeio pela subjetividade de Mayara, uma jovem negra, do interior de Pernambuco, que revisita sua infância e adolescência através de fotografias e conversas com seu pai. A cineasta busca encontrar no passado vivências que expliquem sua personalidade marcada pela violência racial e a masculinidade tóxica que afetaram seus relacionamentos amorosos com outras mulheres. Ao se debruçar sobre os arquivos familiares e ressignificá-los através de procedimentos cinematográficos, as cineastas constituem relatos de si que desafiam e subvertem os arquivos oficiais ou dominantes, que frequentemente refletem discursos, valores e poderes, propriamente, das classes hegemônicas, nesse caso, memórias de famílias heteronormativas. Desse modo, ao deslocar esses arquivos através da montagem e dos relatos em voz off, as cineastas lhes atribuem um uso político e coletivo criando o que pode-se chamar de contra-arquivos. A montagem opera nos filmes como uma forma de desconstruir essas imagens familiares, seja através do uso de efeitos como zoom in e out, o uso de glits e distorções, ou a intercalação e escolha da sequência das cenas sempre (des) orientadas pela voz-off por vezes dramática e irônica que aparece como um relato subjetivo e pessoal das cenas. Em suma, este trabalho pretende investigar de que forma os procedimentos fílmicos como a montagem, a voz em off e o uso dos contra-arquivos são utilizados em cada filme como linhas de força que modulam os relatos de si de forma a trazer à tona memórias pessoais que, quando retornam ao público em formato fílmico, dizem de experiências coletivas e portanto políticas. Afinal, quando Juliana, Mayara e outres sapatões falam de si, também estão narrando experiências que compartilhamos com elas. Ao se colocarem nas telas, as cineastas afirmam suas identidades e nos convidam a mergulhar em suas memórias e subjetividades enquanto pessoas dissidentes de gênero e sexualidade reivindicando o direito a suas histórias e as imagens que lhes foram historicamente negadas. Nossos registros pessoais e íntimos mantêm vivas as nossas histórias, nos permitindo afirmar nossa existência e deixar rastros de vidas dissidentes que o poder hegemônico não pôde apagar. |
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| Bibliografia | MBEMBE, Achille. The Power of the Archive and its Limits . In.: HAMILTON, |