ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | “Noites Alienígenas”: tradições indígenas, pentecostalismo e facções criminosas no Acre |
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| Autor | Maria Neli Costa Neves |
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| Resumo Expandido | O filme “Noites Alienígenas” (2022) constrói uma história que se passa nos tempos atuais, na periferia de Rio Branco, Acre, destacando a vivências de jovens, na sua maioria negros, mestiços e indígenas - que estabelecem relações afetivas entre si, agrupam-se em competições ao redor da poesia (slams), consomem e comercializam drogas, matando-se no cumprimento de regras da facção criminosa fixada na região. A narrativa se concentra na trajetória dos adolescentes Rivelino, Sandra e Paulo, com idade em torno dos 17 anos. Rivelino faz raps, pinturas em spray sobre painéis e muros, negocia drogas para o chefe Alê e tem conflitos com sua mãe, Beatriz. Sandra mora com o filho pequeno, dela e de Paulo, trabalha em um restaurante, é ativa nas competições do slam e diz pretender estudar medicina. O outro personagem do relato é o indígena Paulo, apresentado como viciado em drogas, chamado de “noiado” pelos colegas, e que pressiona a mãe, Marta, por dinheiro, argumentando que está “fodido”. Em uma das cenas do filme, ele arromba a janela da casa materna, invade o lugar, roubando um rádio para, logo depois, tentar trocar o objeto por tóxicos. O traficante Alê é o chefe de Rivelino, um homem de meia idade, que usa pulseiras e colares rústicos, fuma baseados de maconha, toca violão, canta música de Raul Seixas e, como um hippie, articula frases como “aldeia sideral”, “energia que emana em tudo”. Marta, a mãe de Paulo, é indígena: na sua primeira aparição fílmica ela ouve programa evangélico na rádio da casa e aconselha o filho a frequentar a igreja. Em uma situação subsequente, Marta é vista dentro de templo religioso, onde repete as frases do pastor que prega sobre “casamentos destruídos” e “filhos nas drogas”. Mais à frente no longa, Paulo é ameaçado de morte e, para protegê-lo, Marta pede ajuda a sua mãe. As duas, juntamente com outra mulher indígena, realizam um ritual com rezas e cantos ligados à cosmologia ameríndia. Em estudo sobre o pentecostalismo-evangélico entre os povos indígenas, M. Wright e Kapfhammer dizem que “O campo protestante-pentecostal tenta se posicionar para seus seguidores pauperizados como alternativa a uma vida cheia de sofrimento e aflições”, oferecendo a “conversão” como “fuga de cultura” de violência das favelas, entretanto os autores entendem que há também no “discurso indígena”, o destaque da “conversão” como caminho de “superação de sociedades [...] antigas determinadas por relações violentas” (WRIGHT, KAPFHAMMER, 2004, p. 12). No longa-metragem, as imagens são produzidas mediante planos-sequência, câmera na mão que acompanha os personagens em suas caminhadas pelas ruelas, enquadramentos em close-ups do rosto dos atores. O que se projeta na tela são cenários de espaços abertos, casebres de madeira, ruas com piso de terra, mato e pobreza, onde não é percebida a presença do Estado. Estão em cena apenas jovens e adultos vivenciando situações de confrontos, em um jogo de “vozes e discurso” (STAM, 2014, p.306), que desnuda suas conexões com a facção criminosa de nome “Família”. Esta já estaria territorializada no lugar, agendando adolescentes para o comércio de entorpecentes e punindo com a morte os infratores de suas regras. Conforme Couto (2018), as facções criminosas impõem limites e regras às pessoas [...] a partir de seus próprios códigos [e] normas [...], uma imposição em parte direcionada aos sujeitos que estão sob a zona de dominação do narcotráfico, mas que serve, também, para a população que se encontra no campo de forças das relações de poder do narcotráfico (COUTO, 2018, p.77). Nesse filme no qual os personagens surgem dentro de situações de precarização, pode-se dizer, com base em Robert Stam (2014), que não há uma opção por “imagens positivas” para a estruturação da história e não são criados “heróis” mas, ao contrário, são concebidos “sujeitos” (STAM, 2014, p. 304) na luta por sobrevivência dentro de um sistema que os exclui. |
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| Bibliografia | COUTO, Aiola Colares. Geografia das Redes do narcotráfico na Amazônia. Revista Geoamazônia. 2023. |