ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Reflexões sobre a ignorância: memória e política no documentário Domingo no Golpe |
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| Autor | Cristiane Freitas Gutfreind |
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| Coautor | Márcio Zanetti Negrini |
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| Resumo Expandido | A ignorância tornou-se uma referência recorrente na contemporaneidade, especialmente diante de ações e imagens que revelam a barbárie, o falso, o negacionismo científico e o revisionismo histórico. Para além da ausência de conhecimento, ela repercute nas estruturas políticas, sociais e culturais, ao ser instrumentalizada por interesses econômicos e ideológicos – como os voltados à perpetuação das desigualdades. Essa “ignorância funcional” apoia-se na sobrecarga informacional da era digital, em que o excesso de dados pode gerar paralisia crítica e diluir os critérios que distinguem o relevante do irrelevante. Soma-se a esse quadro a desinformação, sustentada por redes automatizadas de boatos, que corroem as bases do conhecimento compartilhado. É nesse cenário que, segundo Peter Burke (2023), emergem as “guerras culturais”, em que a disputa por valores, narrativas e memórias assume o contorno de uma batalha pelo controle do que deve ser lembrado – ou esquecido. Em contraponto, filmes de ativismo organizam saberes e a memória social diante dos conflitos políticos e das adversalidades de nosso tempo, marcado pela reverência à ignorância. A tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, no Brasil, expôs os efeitos da ignorância politicamente instrumentalizada. O episódio revelou a fragilidade institucional diante da violência e da desinformação, inserindo-se numa orquestração mais ampla de ameaças sistemáticas à democracia. Em 2025, a Procuradoria-Geral da República denunciou o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros envolvidos – inclusive militares – por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada. Segundo a denúncia, os ataques foram fomentados por integrantes das Forças Armadas e civis que pretendiam anular o resultado das eleições. Também foram planejados atentados contra o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente e o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Essa mobilização autoritária, marcada por crenças persecutórias e ressentimentos nutridos pela desinformação, evidencia a força das guerras culturais na articulação entre ignorância, discurso político e violência – e convoca o cinema a uma atuação crítica na elaboração da memória dos acontecimentos. Este trabalho analisa como o documentário Domingo no Golpe (Giselle Beiguelman e Lucas Bambozzi, 2023) reflete sobre o atentado de 8 de janeiro. O filme propõe indagações sobre a subjetivação dos sujeitos em seu espaço social e traduz visualmente marcas de ressentimentos ao mobilizar a consciência do espectador diante da realidade política. O documentário foi realizado com arquivos das câmeras de segurança do Palácio do Planalto, revelando a fragilidade do poder institucional, denunciando os atos golpistas e evidenciando os rastros da Ditadura Civil-Militar arraigados na sociedade, além da reverberação da ignorância em sua estrutura política. Ao reconfigurar esses registros, o filme mobiliza o potencial indicial da imagem, mas, é no gesto de montagem que o real se torna experiência – não como prova definitiva, mas como forma sensível de interrogação do mundo Niney (2002). A análise fílmica, associada ao conceito de figura (Dubois, 1999) como instrumento metodológico, permite compreender a construção visual como algo que emana da própria imagem e se relaciona às emoções. Busca-se, assim, resgatar o sentido histórico da apropriação contemporânea da Ditadura. O confronto é parte do político e encontra no poder sua força motriz, mas, ao transformar o outro em inimigo e acirrar diferenças, é manipulado para ameaçar grupos opositores (Mouffe, 2015). O regime militar deixou como herança uma cultura autoritária reatualizada, que aprofunda desigualdades e se expressa na ignorância manifesta na intolerância à diferença. As estratégias estéticas do documentário permitem refletir sobre as configurações do político na imagem e compreender a história recente, assombrada pelo autoritarismo. |
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| Bibliografia | BURKE, Peter. Ignorância – uma história global. São Paulo: Vestígio, 2023. |