ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Buscando uma estética queer: O sexo em Seguindo Todos os Protocolos (2022) |
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| Autor | Eduardo de Andrade Santiago Santos |
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| Resumo Expandido | Um filme é um poderoso aparelho de comunicação, que usa da estética para contar histórias e, em alguns casos, perpetuar narrativas. Teresa de Lauretis (1994) descreve o cinema como uma “tecnologia social”. A partir dos elementos estéticos que o constituem (iluminação, enquadramento, edição, etc), o cinema pode ser usado para reforçar os papéis de gênero, buscando manter a relação de poder que este conceito impõe. Tentando fugir das atribuições impostas, a resistência a esses papéis habita os corpos queer, como coloca LOPES LOURO (2001, p. 546), “queer representa claramente a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada e, portanto, sua forma de ação é muito mais transgressiva e perturbadora”. Perturbação essa que é traduzida ao campo estético assim que esse ponto de vista e modo de vida é traduzido na tela do cinema. No livro A partilha do sensível, Jacques Rancière diz que a estética de obras de arte é um reflexo ou uma perpetuação política. Um objeto estético é “um recorte dos tempos e dos espaços, do visível e do invisível, da palavra e do ruído que define ao mesmo tempo o lugar e o que está em jogo na política como forma de experiência” (RANCIÈRE, 2005, p. 16). O autor também fala que “atos estéticos configuradores da experiência (...) propõem novas formas de sentir e induzem novas formas de sensibilidade política” (2005, p. 18). O campo da estética está, em geral, localizado em um espaço e tempo na sociedade e, a partir dela, são perpetuadas ideias políticas e novos caminhos para retratar sentimentos. Enquanto filmes mainstream tentam funcionar dentro de uma lógica de “enquadramentos e códigos considerados realistas” (GUIDO; PRYSTHON, 2023, p. 180), tais noções de “equilíbrio, constância, discrição e sobriedade, propriedades (...) não condizem com proposições queer” (idem, p. 181). Sendo assim, o cinema queer usa os próprios códigos e proposições estéticas, numa tentativa de traduzir visualmente parte dessa experiência. Em Seguindo Todos os Protocolos (Fábio Leal, 2021), a história de Francisco é contada em meio à pandemia de COVID-19. O filme trata de uma narrativa pandêmica sobre sexo em que o protagonista, ao terminar um namoro de anos por videochamada, passa a buscar prazer. Como o ato sexual é parte fundamental na história do filme, ele se faz bem presente na obra e é filmado de várias formas diferentes, colocando os corpos que ocupam a tela em destaque. Em alguns dos planos, a mis-en-scene é totalmente composta pelo corpo de algum dos personagens. Segundo Paul Preciado, o cinema “não busca representar toda a verdade do sexo, mas questionar (...) os códigos visuais que determinam a normalidade ou a patologia de um corpo ou de uma prática” (2020, pg. 88). No filme de Fábio Leal, o sexo e os corpos habitam a tela não só em um contexto erótico, mas também numa busca de normatização dos afetos e das expressões de gênero que cercam os personagens, o sexo e o desejo servem pra contar histórias de pessoas que vivem com medo: da morte, de doenças, etc, mas que buscam uma forma de ultrapassar isso, realizar seus desejos e tornar a vida um pouco mais palatável. Segundo Foucault, no primeiro volume de A História da Sexualidade, “se o sexo é reprimido, (...) o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada” (2014, pg. 11). Nesse sentido, a transgressão acontece no cinema com o simples fato da presença dos corpos queer e se intensifica quando estão despidos, transando, vivendo e existindo dentro das suas expressões de sexualidade e gênero. É um posicionamento contra alguns aparelhos que já foram e continuam sendo usados para perpetuar ideias de controle de gênero e demonstrar na prática a potência destes corpos. Se a estética é política, as pessoas LGBTQIA+ se apropriam dela para comunicar e mostrar que existem dentro e fora da tela. |
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| Bibliografia | GUIDO, Bruna; PRYSTHON, Angela. Luz e cor: a estética artificial do cinema queer brasileiro contemporâneo. in: Estudios LGBTIQ+, Comunicación y Cultura, v. 3, n. 2, p. 175–182, 2023. |