ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A montagem como espelho da percepção: diálogo entre Imagem e Palavra e Marinheiro das Montanhas |
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| Autor | Susana Dobal |
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| Resumo Expandido | Dois filmes distantes entre si trazem algumas cenas afins e principalmente um mecanismo de montagem baseado em funcionamento a passos tão largos quanto os que efetuam a percepção e a memória. Os tanques irrompem em uma floresta da Segunda Guerra Mundial, assim como na Esplanada dos Ministérios em Brasília; um homem sentado no norte da África acaricia serenamente uma cabra, e outra, também com chifre em parafuso, aparece amarrada em uma rua de Argel, também em longo plano no final do filme; assim como o trem e os trilhos passam reiteradamente em um filme, também as nuvens e as ondas no outro filme apontam para um estado de flutuação. Em ambos não se trata mais de fazer avançar os acontecimentos de uma narrativa, pois quem rege a montagem é a memória, que opera por associações aparentemente tão distantes quanto as que ocorrem em um sonho, sendo que aqui também as conexões não têm nada de arbitárias. Os filmes Imagem e Palavra (Le Livre d’Image), de Jean-Luc Godard (2018) e Marinheiro das Montanhas, de Karim Aïnouz ( 2023) têm em comum não apenas essas cenas semelhantes dispersas, mas um processo de montagem que anuncia questões novas quando já não se trata apenas de filmar, mas de remontar o que já foi filmado. O processo de montagem, nesses filmes, está mais próximo da montagem intelectual teorizada por Eisenstein do que da montagem do cinema clássico, mas dizem respeito principalmente ao processo mental de como se dá a percepção, e ele funciona por meio de saltos mais, ou menos, enigmáticos, que a fenomenologia do Merleau-Ponty ajuda a compreender. Quando, no seu famoso texto sobre montagem, Godard (1956) assinalou a relevância dela para o cinema, ele estava interessado na implicação recíproca entre a direção e a montagem. No contexto do filme Imagem e Palavra, não há mais atores a serem dirigidos, os cortes são resolvidos na montagem, não no set de filmagem, e as questões que se colocam agora dizem respeito ao gerenciamento de imagens já realizadas. Nesse momento da carreira do Godard, a instituição “personagem” diluiu-se, seu interesse pesa mais para o lado da História e da responsabilidade do fazer cinematográfico perante ela. Consequentemente, as questões que se colocam para a montagem são outras que não aquelas da década de 1950. Karim Ainouz, por outro lado, traz também na bagagem uma filmografia que questiona as convenções da transparência do cinema clássico e a separação entre ficção e documentário. Também no seu filme, a narrativa caminha não mais para contar uma história definitiva ou convencer sobre um acontecimento documentado, pois aqui a afinidade maior é com o filme-ensaio, onde a fronteira entre a ficção e o documentário pode se embaralhar. Em Marinheiro das Montanhas, Aïnouz embarca em uma viagem para a Argélia em busca das suas origens pelo lado paterno. Para isso, ele dispõe dos encontros que vai ter no caminho e de um acervo de imagens tanto pessoais quanto da história do país de origem e de destino. Ao associar as vidas dos seus pais ao contexto maior da História, a montagem explora aqui também recursos como a defasagem entre a narração e as imagens, ou associações mais fluidas e menos pragmáticas com a irrupção de cenas aparentemente arbitrárias. O que se encena no universo desses dois filmes é o jogo entre a memória e a percepção. Nas palavras de Merleau-Ponty, as percepções são relações, e não termos absolutos: “Antes de qualquer contribuição da memória, aquilo que é visto deve presentemente organizar-se de modo a oferecer um quadro em que eu possa reconhecer minhas experiências anteriores. Assim, o apelo às recordações pressupõe aquilo que ele deveria explicar: a colocação em forma dos dados, a imposição de um sentido ao caos sensível” (MERLEAU-PONTY,44). É o que se vê encenado nesses dois filmes: ambos recorrem a um acervo de imagens para desvendar a história, seja ela coletiva ou individual, expondo assim o fluxo de relações que a percepção e a memória buscam para dar sentido ao caos. |
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| Bibliografia | BAECQUE, A. Jean-Luc Godard et la critique des temps de l'histoire. Vingtième Siècle. Revue D´Histoire 2013/1. N. 117. p.149-164. |