ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | O segredo restante: representações do sexo no cinema brasileiro pós-pandêmico à luz do pornovídeo |
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| Autor | João Lucas de Castro Pedrosa |
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| Resumo Expandido | Ainda em fase inicial, a pesquisa funciona em duas metades. A primeira tenta contornar um possível “zeitgeist sexual contemporâneo”, para cuja compreensão o vídeo pornô nos servirá de propulsor-chave. A pornografia, por meio da ostensiva exposição do que deve manter-se obsceno, tenta preencher um vazio, uma falta: trata a explicitação do desejo como sua materialização (ABREU, 2012); o video (latim para “eu vejo”, uma ação corrente) é como um objeto-processo, sem extremidades finais ou iniciais, à medida que se apresenta numa quantidade infinita de material, filtrado pelo gênero do corpo a ser consumido (gordos, pretos, latinos, asiáticos, twinks, etc), formato (amador/anônimo ou não) e prática (anal, sem camisinha, etc). A visão do corpo é cada vez menos acessada pelo realismo, e cada vez mais pela ficção. Levanto o objeto-pornovídeo como ferramenta neoliberal (involuntária ou não). O impacto da “imagem total” pornográfica (o gesto sexual explícito) na profusão do vídeo é a ilusão de transparência ilimitada; a rejeição das noções de segredo ou negatividade, o estímulo à exposição constante (HAN, 2023). O seu efeito é a metrificação do desejo: a obrigatória progressão linear rumo ao clímax (aproximação dos corpos / felação / penetração / ejaculação), que rejeita outras manifestações do erotismo - como, por exemplo, em ondas (TRIKA, 2023). Na segunda metade da pesquisa, debruço-me sobre filmes independentes brasileiros lançados durante ou após a pandemia. A iniciativa visa compreender como as obras dialogam com um contexto de centralidade do digital mas relações, viabilizando-as em sua quase totalidade. Mantenho à vista, todavia, a profundidade formativa que os produtos industriais (nisso, das grandes emissoras e produtoras de cinema, das marcas de produto, mas também a da pornografia) têm na condução dos costumes e na educação do sistema de prazer coletivo num geral, muito antes desse recorte temporal. Trazem formulações de mundo e do outro que inevitavelmente influenciam a dos próprios autores aqui analisados. Nesta comunicação, abordarei especificamente “Regra 34” (Julia Murat, 2023). O filme não apresenta grandes influências da mise-en-scéne pornográfica per se: as cenas de sexo ou masturbação tendem a ser filmadas em close de rosto. Sua problemática se manifesta, principalmente, pelo roteiro. O filme segue Simone (Sol Miranda), estudante de direito recém aprovada numa defensoria pública que trabalha, por fora, como cam girl. Ela gosta do trabalho e, após ver determinado vídeo, passa a incorporar aplicações de dor e sofrimento à prática sexual. Simone rejeita da equação quaisquer protocolos de segurança por todo o filme, dando margens para ser abusiva e abusada. O filme flerta com diversos tópicos de uma só vez (sexo, aparato público, significados históricos do corpo, a autoimagem pornográfica, extremos da carne, etc) e anula os efeitos do consumo sobre a percepção de uma personagem que literalmente se dá para o consumo (aquisição e, potencialmente, destruição) de seu corpo ao fim do filme: Simone envia seu endereço a um estranho no Chaturbate por 20 mil tokens, para fazer o que quiser com ela (“A regra é que não há regras”). A conotação escravista é gritante. Num contexto em que a diferença entre a liberdade do olhar consumidor sobre o corpo (ou seu potencial de ser consumido) e a liberdade do corpo em si se borram, o filme de Murat parece acreditar que os dois são o mesmo - “pornografia” e “sexo” são equivalentes na trama, assim como “consumo” e “desejo”. Raspa a superfície da contradição dos desejos como subterfúgio do seu consumo. Assim se manifesta uma autoria consumidora, ficcionalizando o corpo e o mundo como se as originais observadas fossem versões suas já previamente ficcionalizadas. Não é o caso de um jogo vertiginoso de clichês e arquétipos, mas a crença de que se monta, na obra, uma representação ambígua ao invés de um pragmatismo fetichista. A ficção pornográfica se impõe como realismo cinematográfico. |
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| Bibliografia | ABREU, Nuno Cesar. O Olhar pornô: A representação do obsceno no cinema e no vídeo. |