ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Kashtanka e o cinema infantil soviético: Diálogos entre Anton Tchekhov e Olga Preobrajenskaya |
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| Autor | Camila Cattai de Moraes |
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| Resumo Expandido | Olga Ivanovna Preobrajenskaya (1881–1971), uma das primeiras mulheres diretoras do cinema soviético, consolidou sua carreira com 15 filmes, cinco dos quais dedicados ao público infantil. Kashtanka (1925), seu quinto longa-metragem (73 minutos), adapta o conto (1887) homônimo de Anton Tchekhov (1860-1904), transformando uma narrativa sombria em um melodrama comovente e menos cruel. O filme acompanha a cadela Kashtanka, que, após se perder de sua família, é acolhida por um mágico de circo e treinada para espetáculos ao lado de outros animais. Esta análise explora como Preobrajenskaya reinterpreta o texto original, suavizando seu pessimismo e incorporando elementos próprios da linguagem documental, ao mesmo tempo em que constrói uma obra de apelo popular massivo. No conto de Tchekhov, Kashtanka vive sob o domínio de Luka Alexandritch, um carpinteiro alcoólatra, e de seu filho Fedushka, uma criança violenta que a maltrata. A cadela, após se perder de ambos, é resgatada por um artista circense que a rebatiza como Tiotka e a integra a um grupo peculiar de animais — um ganso, um gato e uma porca. Apesar do carinho e da atenção que Kashtanka recebe de seu novo tutor, o conto, narrado sob a perspectiva dos pensamentos da cadela, mantém um tom melancólico e desesperançoso. Tchekhov conclui sua narrativa com Kashtanka sendo encontrada pelos seus antigos tutores e retornando à sua primeira casa, reconhecendo o tempo que viveu com o artista como “um sonho longo e pesado”. O autor, em seu conto, reforça críticas à condição animal sob o tzarismo e estabelece um paralelo entre a desesperança da sociedade russa com a estrutura na qual vivem os animais. Preobrajenskaya, no entanto, reconta essa história com significativas alterações. A família de Kashtanka não é mais composta por figuras brutais, mas por um carpinteiro trabalhador e um filho amoroso. A separação da cadela ocorre não por negligência, mas por um acidente — ela é roubada em uma feira. Essa sequência é um retrato da dinâmica das trocas comerciais soviéticas, apresentações de rua e convivência entre humanos e animais, elementos que se tornariam uma marca registrada da diretora em filmes posteriores, como cita Ferro (1992, p. 118) descrevendo a obra mais célebre de Preobrajenskaya, As mulheres de Ryazan (1927). O filme também introduz novos elementos dramáticos, como o sequestro de Fedushka por criminosos e sua fuga emocionante durante uma tempestade de neve — cenas que amplificam o suspense e reforçam os laços familiares, dividindo o protagonismo entre Kashtanka, Luka Alexandritch e Fedushka. O filme finaliza com uma alegria que não está presente na obra tchekhoviana: a família – pai, filho e cadela – comemoram em volta da mesa com personagens inventados por Preobrajenskaya, com função decorativa (BRAIT, 1972, p. 48), mas que amotinam a solidão de Luka Alexandritch quando está sem Fedushka e Kashtanka. Kashtanka foi um grande sucesso de público, consolidando-se como um fenômeno tanto na URSS quanto no circuito internacional. A cadela que interpretou a protagonista tornou-se uma celebridade, chegando a ser noticiada até mesmo na imprensa brasileira. O êxito do filme ofereceu à Preobrajenskaya a seleção, em 1927, juntamente com outros quatro cineastas soviéticos, para realizarem obras comemorativas em homenagem ao decimo aniversário da Revolução. Os trechos do conto e do filme utilizados para a pesquisa foram traduzidos pela autora, do idioma original, garantindo fidelidade às fontes primárias. |
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| Bibliografia | AUMONT, Jacques. "Raison de la comparaison". In: Comment pensent les films: Apologie du filmique. Milão: Ed. Mimesis, 2021, p.195-216. |