ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Do tempo de Hilda Hilst ao de Eduardo Nunes; uma análise de Unicórnio (2018) |
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| Autor | Gustavo de Souza Araujo |
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| Resumo Expandido | Unicórnio (2018), de Eduardo Nunes, transpõe os contos O unicórnio (1970) e Matamoros (da fantasia) (1980), de Hilda Hilst, para a linguagem cinematográfica. A prosa de Hilst é conhecida por ser fragmentada e verbalmente densa, e, no caso de O unicórnio, por apresentar vozes de narradoras-personagens que se confundem em diálogos não lineares de tom retóricos. Já o filme opta por uma narrativa visual delicada, com camadas oníricas e fantasiosas intensificadas pelo uso do som e da cor, substituindo a verborragia por silêncios e planos longos, com enquadramentos abertos e poucos movimentos, características que definem cinematografias de ritmo lento (De Luca, 2017; Monteiro, 2017). Essa escolha converte o tempo literário, acelerado como um fluxo de pensamento, em um tempo audiovisual contemplativo. No caso estudado, o roteiro de Nunes, intermediário nesse processo, descreve ações com advérbios como “lentamente”, que indicam a cadência do filme. Consideramos que a escrita e leitura do roteiro envolvem a criação mental de imagens e sons que antecipam o filme (Igelström, 2014), e, por sua abertura interpretativa, o roteiro possui autonomia como obra audiovisual (Nanicelli, 2021). Transpor um texto para outro meio — seja intra, interlinguística ou intersemiótica (Jakobson, 2021) — não se limita à tradução literal e envolve uma reinvenção criativa. Em Unicórnio (2018), a passagem dos contos para o roteiro e, depois, para o cinema, implica em ressignificar tempos, espaços e linguagens. No contexto fílmico, o tempo-espaço é intercalado entre passado e presente, dividido em dois ambientes principais que marcam isso no longa; o “espaço branco”, onde Maria rememora acontecimentos com seu pai, e a “casa no campo”, onde a personagem vive com a mãe — cada um se refere a um dos contos. Na transposição, o nome da protagonista (Maria), por exemplo, vem de Matamoros e a maioria dos diálogos vem de O unicórnio. Há uma passagem num dos textos da autora em que, ao contar uma história, a narradora fala de um momento que seu irmão enterra um canivete numa figueira (Hilst, 2018), adaptada no filme (sequência 11) quando o criador de cabras golpeia uma árvore com um facão; ambos justificam que “vegetais não sentem dor”, enquanto a narradora/protagonista protesta. Outro exemplo é a história contada de um rato que quer subir em um muro, traduzida quase literalmente no filme como uma animação narrada pela personagem do pai. Esses casos revelam que o roteirista, ao transpor um texto literário, atua como tradutor e autor (Cassins, 2015) ao selecionar trechos dos contos e os projetar em novas linguagens; o filme amplifica o “não dito” dos textos fonte, como a relação de Maria com a natureza, e introduz elementos autônomos, como cor e som ambiente. A partir de um método de análise comparativa, este estudo pretende examinar três linhas: o cotejo de passagens-chave (como a cena da árvore, do rato e outras) entre os contos, o roteiro e o filme; a análise da mise-en-scène (planos, ritmo, som) para compreender como a palavra literária se transforma em texto no roteiro e, depois, em imagem — e como, nesse processo, a temporalidade fílmica se manifesta em contraste com a dos textos de origem; e o exame das estratégias de ampliação narrativa no roteiro. Os resultados preliminares mostram que a adaptação no longa-metragem opera por reinterpretação mais que por fidelidade literal - ainda que se encontrem trechos correspondentes entre as obras. |
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| Bibliografia | CASSINS, Fahya Kury. Adaptação: O trabalho de preenchimento intertextual do roteirista. in: Cenas das Interfaces com o mercado, p. 72-78, 2015. |