ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Cerâmica, cinema e educação contra o tecnofeudalismo |
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| Autor | Adriana Mabel Fresquet |
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| Resumo Expandido | A ascensão das reformas educacionais digitais no Brasil — inseridas no movimento global de digitalização e financeirização da educação — evidencia um dilema central para o campo do cinema e da educação: como disputar os sentidos da formação e da memória em um contexto marcado pelo avanço do tecnofeudalismo, como define Yanis Varoufakis, e pela hegemonia das plataformas algorítmicas que reconfiguram os arquivos, as políticas e as práticas pedagógicas? A partir dessa questão, esta comunicação propõe refletir sobre as disputas em torno do lugar do cinema na educação digital contemporânea, especialmente frente ao que Saura, Adrião e Arguelho (2024) identificam como a consolidação de um novo regime de reformas educacionais digitais — a REDB — caracterizado por três elementos interdependentes: agendas tecnoeducativas, redes políticas de governança digital e mercados financeirizados da indústria EdTech. Tais agendas operam com base em imaginários sociotécnicos voltados à promessa de inovação e eficiência, muitas vezes articulados por alianças público-privadas envolvendo o Estado, corporações tecnológicas, fundos de investimento e fundações filantrópicas, como exemplifica o papel central do Cieb na Política Nacional de Educação Digital e na Estratégia Nacional de Escolas Conectadas. Em nome da conectividade e da personalização da aprendizagem, instaura-se um regime de plataformas e de dados que afasta a escola de sua função pública, reduzindo a complexidade da formação a modelos escaláveis de gestão algorítmica. Nesse cenário, os arquivos audiovisuais — entendidos aqui não como repositórios estáticos, mas como dispositivos de invenção, memória e alteridade — tornam-se alvos da mesma lógica de mercantilização. O cinema, enquanto linguagem coletiva, histórica e política, vê-se ameaçado pela substituição de sua materialidade sensível por conteúdos “digitais” otimizados, atomizados e ajustados às demandas dos mercados de capital de risco, como os que impulsionam as EdTechs na América Latina. Frente a esse diagnóstico, buscamos mobilizar experiências e práticas que rompem com essa lógica tecnosolucionista. São iniciativas que apostam em formas de arquivamento e curadoria audiovisual enraizadas no território, na escola, na cultura popular e na educação como bem comum. Tais práticas convocam o cinema como experiência estética e política que resiste à datificação da vida e à colonização do imaginário escolar por dashboards e roteiros instrucionais. No entanto, resistir ao tecnofeudalismo exige também imaginar outras formas de tecnologia. Projetos como o Cerabyte — que propõe soluções de armazenamento de dados em cerâmica com durabilidade de até 10.000 anos, independência energética e resiliência ao tempo — abrem horizontes para uma reconfiguração radical dos arquivos digitais. Ao propor um modelo não volátil, acessível e não destrutivo de arquivamento, a Cerabyte oferece um contraponto às lógicas atuais de obsolescência programada, dependência de nuvens corporativas e vigilância permanente. A tecnologia, nesse contexto, pode ser reinscrita como aliada da memória coletiva, da soberania informacional e da educação como um campo público. A comunicação, portanto, propõe um deslocamento: do fetiche pela inovação tecnológica para o reconhecimento do cinema como linguagem de complexidade, sensibilidade e produção de mundos — em articulação com novas infraestruturas tecnológicas comprometidas com o comum. Ao invés de se render à lógica das redes de governança digital e dos pacotes educacionais customizados, propomos a valorização de redes de cuidado, criação e circulação de arquivos audiovisuais públicos, acessíveis e críticos — capazes de reencantar a escola e abrir brechas para outras pedagogias do olhar e do escutar. Disputar os futuros da educação digital é também disputar os modos de narrar, preservar e imaginar. O cinema — e as tecnologias como a Cerabyte — podem ser instrumentos centrais dessa resistência. |
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| Bibliografia | BEIGUELMAN, G. Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo: Ubu, 2021. |