ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | O afeto da vingança e o ritual nos filmes Bacurau (2019) e Propriedade (2022) |
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| Autor | TATIANA GOMES DOS SANTOS |
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| Resumo Expandido | A vingança é um tema recorrente no cinema. Apesar de ser associada recorrentemente com a justiça ou confundida com atos de legítima defesa, ninguém está autorizado legalmente a praticar justiça com as próprias mãos. Nesse contexto, este estudo busca investigar como o cinema brasileiro mobiliza este afeto de vingança sob duas perspectivas que se entrelaçam: a teoria dos afetos de Baruch de Espinosa e a teoria do ritual de vingança de René Girard. Sendo assim, para compor o corpus do presente trabalho foram selecionados dois filmes distintos que abordam o tema das vinganças coletivas: Bacurau (2019) e Propriedade (2022). Bacurau é um filme que mistura muitos elementos de suspense, western, ficção científica, dentre outros, e que se passa em uma pequena cidade fictícia no sertão nordestino do Brasil. A trama gira em torno da comunidade local que começa a enfrentar eventos estranhos após o velório de uma moradora idosa. À medida que os acontecimentos se desenrolam, a cidade percebe que está sendo alvo de um grupo de estrangeiros que buscam explorar e dominar a região, “caçando” literalmente vários habitantes da comunidade. Diante dos ataques e mortes, os moradores de Bacurau revidam violentamente ao ataque. Já Propriedade (2022) é um filme de terror que aborda a luta de classes na sociedade brasileira. Ele conta a história de Tereza, uma mulher de classe média alta de Recife, que em seu passado, foi vítima de violência. Após o ocorrido, a personagem passa a viver reclusa em um apartamento com a sua família. No filme, ela e o marido vão passar um tempo no campo e ao chegarem à fazenda, se veem em meio a uma revolta dos trabalhadores locais que viviam em situação análoga à escravidão. Em um ciclo de violência, o proprietário, marido de Tereza, é atacado e gravemente ferido e, com isso, ela foge e se enclausura no carro blindado da família, que a separa do contato com os moradores locais e impossibilita a comunicação entre ambos os lados. Inicialmente, a análise dos filmes tem como base teórica a teoria dos afetos de Baruch de Spinoza (2009 e 2013) e a teoria do sacrifício, ritual e violência de René Girard (1990 e 2008). Para Spinoza (2009) em sua obra Tratado Político, o desejo de vingança pode ter um papel positivo quando associado a busca coletiva por justiça, considerando que os seres humanos são guiados mais pelos afetos do que pela razão, a partilha de afetos, como por exemplo, a esperança, o medo ou o desejo de vingança, permite que um grupo atue em conjunto, como se tivesse uma única mente, ou seja, um corpo político, ou a multidão. Já para Girard, os sacrifícios e rituais funcionam como mecanismo para frear um ciclo de violência e de vingança dentro de uma sociedade. Os rituais de sacrifício serviram, assim, ao longo da história para interromper vinganças intermináveis em sociedades pré-jurídicas. Sendo assim, para Girard, as estratégias de contenção da violência, como o sacrifício ou o ritual, assim como as da utilização de bode expiatório, são capazes de reconciliar e pacificar temporariamente os homens. O sacrifício, nesse sentido, não é apenas um ato de violência institucionalizada, mas um meio ritualizado de estabilizar as tensões e reafirmar a coesão social (Girard, 2008). Diante do exposto, propõe-se uma análise imagética dos dois filmes, com o intuito de identificar elementos afetivos que expressem o afeto da vingança e sua ritualização como forma de contenção de violência, conforme a teoria de René Girard. Sendo assim, importante referir que assim como nos filmes analisados, em contextos marcados pela insegurança jurídica, o afeto da vingança, quando motivado pela luta pela sobrevivência, pela resistência ou pela demanda por justiça pode, de acordo com os ensinamentos de Spinoza, não apenas aumentar a potência de agir, mas também reforçar os vínculos sociais e a reivindicação por um Estado que assegure efetivamente a justiça. |
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| Bibliografia | GIRARD, René. A violência e o sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990. |