ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Assombros coloniais: o gótico e a estética negativa em “A herança” (2024), de João Cândido Zacharias |
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| Autor | Marcelo Miranda da Silva |
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| Resumo Expandido | O filme "A herança" (2024), de João Cândido Zacharias, constitui um objeto de estudo particularmente rico para se pensar as relações entre o gótico literário e sua transposição para o cinema brasileiro contemporâneo, especialmente na capacidade do gênero como dispositivo crítico das estruturas sociais e históricas. Ambientado num casarão colonial decadente, o longa-metragem opera sofisticada releitura das convenções góticas, transformando-as em análise das contradições da formação nacional brasileira. Essa transposição se dá precisamente através do que Fred Botting (2024) identifica como característica fundamental do gótico expressivo: o sistemático embaçamento de fronteiras entre passado e presente, entre razão e superstição, entre o indivíduo e as estruturas sociais que o determinam. Essa operação gera o “temor sublime” (BOTTING, 2024) como efeito estético e emocional. Em "A herança", o diretor combina elementos sobrenaturais tradicionais do gótico, como aparições fantasmagóricas, atmosferas de mistério e eventos inexplicáveis, com a crueza histórica social brasileira, criando uma atmosfera na qual os chamados “incidentes fantasmagóricos” (BOTTING, 2024) deixam de ser apenas recursos de suspense para virem como sintomas de violências históricas não resolvidas. O casarão colonial de família, espaço central de "A herança", é entidade física e psíquica, é arquitetura concreta e projeção das angústias. Isso exemplifica a ideia de Botting de que o gótico, ao se tornar expressão estética, “questiona mais do que resgata qualquer continuidade imaginada entre passado e presente” (BOTTING, 2024). Essa dupla natureza do espaço fílmico, ao mesmo tempo cenário concreto e metáfora das estruturas sociais, revela-se fundamental para compreender como o filme elabora sua crítica à violência colonial. A narrativa dissolve as fronteiras convencionais entre racional e passional, entre natureza e cultura, e expõe contradições de uma elite brasileira atormentada pelos fantasmas de seu próprio passado. Como observam Julio França e Daniel Augusto Silva (2022a) em seus estudos sobre o gótico brasileiro, tal relação não é fortuita, mas sim característica de uma tradição literária e cinematográfica nacional que utiliza os recursos do gênero para tratar desses constrangimentos históricos e desnaturalizar estruturas de poder. Esta apresentação pretende tratar de como "A herança" mobiliza o potencial do gótico, conforme teorizado por Botting, para desestabilizar não apenas as convenções narrativas tradicionais, mas sobretudo as noções de continuidade histórica e harmonia social tão caras ao imaginário nacional brasileiro. O estudo se concentra em três eixos principais de análise que fazem parte de uma pesquisa mais ampla: o espaço arquitetônico do casarão como representação das inquietações especialmente do protagonista, com o sobrenatural emergindo como sintoma de violências históricas reprimidas; o desenvolvimento da narrativa através da sistemática desestabilização das dicotomias razão/paixão e indivíduo/sociedade, operação característica do gótico segundo Botting; e a atualização do conceito de “monstruosidade” (COHEN, 1996) para tratar não apenas de personagens individuais, mas toda uma estrutura familiar e social. A metodologia combina análise fílmica, com especial atenção à construção de espaço, tempo e personagens, e referencial teórico do gótico literário e cinematográfico. A abordagem permite demonstrar de que forma "A herança" se insere numa tradição do gótico brasileiro dentro de um contexto contemporâneo de 2024 ao expor as descontinuidades e violências da formação nacional e individual e revelando um “assombro sublime” (BOTTING, 2024) que nunca deixou de aparecer nas criações artísticas do país. |
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| Bibliografia | BOTTING, Fred. Gótico. São Paulo: Clepsidra, 2024. |