ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Cartografias latino-americanas: geopolítica e espacialidades no cinema de Maya Da-rin |
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| Autor | fernanda ribeiro de salvo |
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| Resumo Expandido | Neste artigo faremos uma reflexão sobre os espaços conformados pelo cinema de Maya Da-rin, com atenção a dois de seus documentários. O primeiro é Margem (2007) que acompanha durante dois dias uma embarcação que parte da fronteira entre o Brasil e a Colômbia, com destino à Iquitos (Peru). No filme, a câmera inventaria a paisagem à medida em que o barco avança e os passageiros apresentam suas compreensões sobre o território, cravado no interior da floresta amazônica. Em Terras (2009), a cineasta recupera as experiências subjetivas dos moradores das cidades fronteiriças de Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil). Nos filmes, as fronteiras são investigadas não como limite territorial, mas como lugar de muitos atravessamentos: dos fluxos migratórios e dos significados, dos intercâmbios linguísticos, dos movimentos e emergências. Ao tomar a fronteira em seu sentido geográfico sem descuidar de sua dimensão simbólica, os filmes de Da-rin colocam sob rasura a noção de fronteira como invenção do mundo colonial. Com efeito, as narrativas fornecem cartografias outras, permitindo a reelaboração de imaginários e historicidades sobre os territórios latino-americanos. Os filmes conformam espacialidades políticas, à medida em que constroem representações férteis de mapeamentos e formas de conhecimento pautados pelas heterogeneidades, confluências e intercâmbios próprios dos territórios que figuram. Para discutir a geopolítica que se desenha junto com os filmes de Da-rin, retomaremos o conceito de “epistemologias do Sul”, formulado por Boaventura de Sousa Santos (2019). Com a noção, Santos prenuncia a constituição de um Sul epistemológico, não-geográfico, de onde se manifestam conhecimentos nascidos dos atos resistentes ao capitalismo e ao colonialismo. Instrumento metodológico primoroso para a aproximação ao tema, sugere Santos, é a aplicação da “sociologia das ausências”— uma espécie de cartografia que identifica os modos como a linha que separa o lado metropolitano do lado colonial do planeta (separação produzida pelo colonialismo histórico) produziu exclusões abissais e a não-existência de certos grupos, localidades e modos de vida, a fim de torna-los perigosos, descartáveis ou ameaçadores (Santos, 2019). A proposição de Santos nasce pontuada por sua preocupação com a produção dos espaços no mundo colonial como reiteração das relações hegemônicas. Preocupação análoga alimentou o debate crítico no campo das artes e das ciências humanas durante todo o século XX. Não por acaso, as transformações no espaço pictórico impulsionadas pelas vanguardas artísticas no início do século negaram a geometria perspectivista e o espaço euclidiano criado no Iluminismo. Do mesmo modo, a temática do espaço integrou argumentos de filósofos e historiadores da arte ao longo do século, como se observa nas contribuições de Ortega y Gasset, Pierre Francastel e Michel Foucault, só para citar alguns nomes. Tais pensadores preferiram uma compreensão aguda do espaço, destronando as crenças racionalistas relativas ao espaço e tempo homogêneos. No que tange ao “espaço representado”, Jacques Aumont (2012, p. 228) recupera a colaboração de Francastel para quem as relações espaciais deveriam ser observadas não somente em função do “visível e de sua geometria, mas de um ponto de vista múltiplo, fundado também na noção de ‘espaço social’ de Durkheim e na noção de espaço ‘genético subjetivo’ de Piaget e Wallon”. Em seus escritos sobre as experiências espaciais mundo moderno, David Harvey (2008) afirma que a tendência a privilegiar a espacialização do tempo, que se observou em pensadores como Lyotard, Fish, Frampton e Foucault “oferece múltiplas possibilidades no âmbito das quais uma ‘alteridade’ espacializada pode florescer” (Harvey, 2008, p. 248). Com base nessas contribuições, examinaremos como os filmes de Maya Da-rin constroem espacialidades políticas, que redundam em novas formas de conhecimento sobre os territórios latino-americanos e de figuração da alteridade. |
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| Bibliografia | AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas, SP: Papirus, 2012. |