ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A profanação da imagem: o uso do arquivo para um devir queer |
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| Autor | Nicolás Andrés Luna |
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| Resumo Expandido | Profanar, nos termos propostos por Giorgio Agamben, implica transgredir e restituir ao uso comum aquilo que foi separado e declarado indisponível ao ser humano: o sagrado (Agamben, 2005, p. 83). A profanação, nesse sentido, não consiste apenas em quebrar uma restrição simbólica, mas em devolver ao domínio do uso comum aquilo que dele foi excluído, habilitando-o para um uso potencialmente infinito e, assim, expandindo seu campo de significação e possibilidades. Aplicada ao campo das imagens, a profanação implica retirá-las de sua função limitada ou institucionalmente determinada. Uma imagem de arquivo, por exemplo, se espera que cumpra uma função documental: informar, comprovar ou registrar alguém ou algum acontecimento. Nesse contexto, recorre-se à sua literalidade, limitando ela, restringindo sua potência expressiva e simbólica. De modo semelhante, imagens oriundas da televisão, do cinema ou da publicidade estão submetidas a uma lógica de consumo, na qual seus sentidos são delimitados por objetivos comerciais ou narrativos preestabelecidos, esvaziando a possibilidade de deslocamentos semânticos. Cabe então procurar formas e referências que proponham uma fissura da funcionalidade do arquivo. No curta-metragem Diários de confissões íntimas e oficiais (2021), Marilina Giménez constrói uma releitura pessoal e política a partir de imagens extraídas de programas televisivos, peças publicitárias e arquivos pessoais das décadas de 1990 e 2000. Nesse trabalho, a diretora narra sua primeira relação lésbica em paralelo ao contexto sociopolítico da Argentina naquele período. Marilina ocupa simultaneamente os papéis de narradora e protagonista: sua voz conduz o percurso narrativo, organiza a montagem e propõe desvios poéticos e afetivos sobre essas imagens. Em determinado momento, ao final da obra, após (re)contar sua história de amor, afirma: “Se ressignifica, se re-significa e ressignifica”, enquanto as imagens de arquivo retornam de maneira vertiginosa, reiterando a potência do arquivo. Giménez reinventa sua trajetória a partir de uma relação direta com esse arquivo audiovisual, que não apenas documenta um país e seus discursos, mas também evoca desejos íntimos, medos e experiências de uma subjetividade queer que se apropria dessas imagens para projetar futuros possíveis. Em A noite do minotauro (2023), Juliana Zuluaga Montoya propõe-se, por meio do uso de material de arquivo, a especular sobre a história de sua avó, Luz Emilia García, precursora do cinema pornográfico colombiano. A obra de Juliana pode ser compreendida como um exercício de reinvenção da memória tanto no âmbito familiar quanto no nacional, uma vez que a morte de Luz Emilia convoca o espectador a refletir sobre o cinema pornográfico na Colômbia. As imagens de arquivo são manipuladas em sua cor, duração e narrativa. Juliana subtrai essas imagens de sua função conservadora como arquivo familiar para profaná-las e expandir suas possibilidades de leitura, a partir de uma perspectiva especulativa e de fuga. Trata-se de trabalhar a memória por meio de derivações possíveis entre imaginação e fantasia. A cineasta tensiona os limites do arquivo, subverte sua lógica, rompe-o para fabular com ele. Ambas as diretoras profanam o arquivo por meio de procedimentos estilísticos distintos; contudo, compartilham uma preocupação comum: o exercício de revelar o que foi silenciado ou imaginar aquilo que talvez jamais tenha existido, mas que carrega uma potência de existência. As cineastas revisitam as imagens do passado para inscrevê-las no presente e, assim, propor devires, iluminando aquilo que permaneceu à sombra, inventando aquilo que não existiu e foi reprimido ou disciplinado. Profanar o arquivo configura-se como um gesto de dizer o que não foi dito e imaginar aquilo que poderá vir a ser (Muñoz, 2020, p. 106). Profanar é, portanto, insistir.É retornar continuamente às imagens e às suas fissuras. É permitir que o impossível seja dito, que o impensável emerja para ser (re) narrado. |
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| Bibliografia | AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2005. |