ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Obras Repatriadas: Paralelos entre Cinema e Museus |
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| Autor | Samuel Macêdo do Nascimento |
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| Resumo Expandido | No campo da educação museal, obras, acervos e coleções têm um papel pedagógico fundamental. Dentro de uma perspectiva freiriana, essas peças encapsulam a história de um povo e ensinam. Bacurau (2019, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles) retrata o museu como um espaço aparentemente subestimado pelos inimigos, mas profundamente vital para a sobrevivência e resistência do povo nordestino. Objetos como fotografias, ferramentas e armas — ou até mesmo a mancha de sangue de uma mão na parede do museu, vestígio espectral de um massacre mal sucedido — narram histórias de resistência contra sistemas oligárquicos, evidenciando a força indomável daquela comunidade. Conforme mencionei em meu último texto, apresentado durante o XXVII Congresso da SOCINE em 2024: o desenrolar do plano de destruição da pequena Bacurau poderia ter tomado um rumo diferente, caso os personagens provenientes de países do norte global tivessem se dedicado a explorar e compreender o Museu da cidade. Em As Estátuas Também Morrem (1963, Ghislain Cloquet, Chris Marker, Alain Resnais), as obras de arte transcendem o espaço físico do museu, funcionando como personagens e fantasmas que expõem o saque colonial praticado por países europeus em relação às nações de África. Essas obras, além de objetos de culto, evidenciam questões de apropriação cultural e histórica. Aqui surge a indagação: um "novo mundo" foi criado, mas para quem? A interseção entre arte e cinema, especialmente nas artes visuais e performance, abre caminhos para explorar a criação e construção de novos cenários. Cada vez mais, artistas contemporâneos têm incorporado a produção audiovisual como elemento indispensável em seus processos expositivos. Além disso, a linguagem audiovisual expande significativamente as possibilidades de reflexão sobre o campo museal, fomentando diálogos entre o acervo, o espaço e o público. Um exemplo atual é a luta da artista indígena baiana Glicéria Tupinambá pela repatriação dos mantos Tupinambás, mantidos durante séculos em museus europeus. No filme O Manto e o Sonho (2023, Elisa Mendes), que integra o ciclo Memórias Ancestrais (2023, Anna Dantes), Glicéria compartilha sua relação com os mantos e a pesquisa sobre os usos rituais desses artefatos por seu povo. Ela reflete sobre a jornada de recuperação desses objetos, muitos deles preservados em coleções privadas e museus na Europa. Paralelamente, Glicéria explora os sonhos que orientam seu aprendizado e alimentam sua determinação na busca pela repatriação. O gesto de Glicéria suscita uma questão crucial: como lidar com as obras repatriadas? De que maneira a linguagem audiovisual, amplamente empregada nas curadorias de eventos artísticos de destaque, como as recentes edições da Bienal de São Paulo e da Bienal de Veneza, pode contribuir para a reivindicação e a reorganização democrática dos acervos e reservas técnicas? Tanto o cinema quanto os museus são espaços de memória. Contudo, como observado em Bacurau, toda memória carrega em si elementos de ficção. É momento de repensar a maneira como estruturamos nossa história e nossa arte, adotando uma perspectiva contra-colonial. Vergès (2023, p. 33) ressalta: “O museu é um grande túmulo onde mortos anônimos permanecem insepultos.” Nesse cenário, museus e cinemas, em colaboração, podem reanimar esses fantasmas, abrindo caminho para novas narrativas e sonhos capazes de resistir às heranças coloniais, enquanto promovem diálogos que favoreçam soluções justas e dignas para a repatriação de obras indígenas, africanas e outras. |
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| Bibliografia | ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. – 5. ed. - São Paulo: Cortez, 2011. |