ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Cinema Experimental e Documentário como prática de liberdade e resistência no Cariri cearense |
|
| Autor | Rodrigo Capistrano Camurça |
|
| Resumo Expandido | O Cariri cearense é uma região localizada no sul do estado e conhecido por ser um celeiro de ricas manifestações culturais. Contando com 28 municípios, numa população total de aproximadamente um milhão de habitantes, o Cariri também possui uma importante história na produção cinematográfica do estado do Ceará, mas sempre conviveu com a escassez dos cursos de formação em audiovisual e a consequente falta de investimento em produções cinematográficas. Nos últimos anos essa realidade vem mudando, podendo ser mapeados uma maior diversidade de atividades de cineastas, coletivos, produtoras e cineclubes. Acreditamos que essas transformações foram ocasionadas a partir das políticas públicas de fomento, em especial o investimento em formação, que proporcionou o surgimento de vários cursos livres na região. O DOC Cariri – Curso de Documentário, projeto contemplado na Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Ceará (SECULT-CE), foi uma iniciativa do cineasta caririense Ythallo Rodrigues e que ocorreu em duas oportunidades: a primeira edição entre fevereiro a maio de 2018 e a seguinte entre março a junho de 2023. Nos dois cursos foram formados 46 alunos que se dedicaram a uma carga horária média de 260H. As turmas eram de alunos residentes especialmente das cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha e os processos de seleção contaram com ações afirmativas e critérios de vulnerabilidade social. A criação de um cineclube, intitulado Cineclube Elizabeth Teixeira, marcou a segunda edição do Doc Cariri, garantindo a exibição de filmes realizados pelos alunos e professores convidados. Experimentar o Experimental também foi idealizado pelo cineasta Ythallo Rodrigues, desta vez em parceria com Alexandre Veras, artista com longa experiência na criação de processos formativos em audiovisual no estado do Ceará. O título escolhido é uma referência a um texto de Hélio Oiticica (1980), que, debatendo acerca de algumas de suas obras, aborda a necessidade de assumir o experimental como exercício de liberdade. O curso ocorreu entre fevereiro e março de 2025 e formou 30 alunos, numa carga horária com duração de 120 horas. O formato contou com quatro semanas de aulas em pontos diferentes da cidade de Juazeiro do Norte e finalizou com uma viagem de cinco dias para o Atelier Rural, espaço de experimentação artística e finalização de filmes organizado por Alexandre Veras. Acreditamos que esses dois modelos de cursos livres adotaram gestos pedagógicos que potencializam o surgimento de práticas de liberdade e resistência, fazendo do cinema um espaço capaz de tramar novos circuitos e agenciamentos (PIPANO, 2023). Os filmes que resultaram dessas propostas de cursos livres partiram das próprias experiências de vida da comunidade discente, desenvolvendo preferencialmente obras voltadas para o cotidiano, a intimidade e os lugares comuns. Os interesses das realizações também apontaram para a investigação da estética do sonho, a ressignificação das imagens de arquivo e para os elementos estruturais do audiovisual. Essas características destoam completamente da produção cinematográfica que marcou de forma hegemônica o Cariri cearense, construído a partir de um universo carregado de religiosidade e cultura popular, mas que contribuíram para a reprodução de estereótipos da região. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011). Estes processos formativos e os filmes realizados apontam importantes formas de inscrição política, na valorização de uma aliança entre cinema e território (CÉSAR, 2022) e apostando em suas possibilidades de reinvenção. O que também estava em jogo era o próprio ato de criação artística credenciado como estado de resistência, numa tentativa de resgatar no mundo a potência que suscita e constrói acontecimentos (DELEUZE, 1992). Esta criação de possíveis encontrou ressonância nesses gestos pedagógicos desenvolvidos no Cariri cearense, e desembocaram na formação de uma coletividade capaz de produzir e reverberar movimentos de liberdade e criação. |
|
| Bibliografia | ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo/Recife: Cortez/Massangana, 2011. |