ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | O pensamento cinematográfico corporificado de Maya Deren no cinema latino feito por mulheres |
|
| Autor | Isabelle do Pilar Mendes |
|
| Resumo Expandido | A presente pesquisa tem como proposta a análise da expressão de mulheres no cinema experimental latino-americano contemporâneo. Para isso, investigamos o processo de criação de cineastas que entendemos ser fruto de uma necessidade (Deleuze, 1999), estar conectado à maneira como elas processam as suas experiências. Por se tratar de uma questão de forma de expressão, trazemos como base teórica o conceito de realismo de Maya Deren, reconhecida como uma precursora do cinema experimental, em seus ensaios sobre cinema compilados por Martínez (2015). Para Deren, o realismo cinematográfico está relacionado a um “ato de tornar realidade” (Deren, 1947) o que a posiciona a partir de uma concepção não representativa: a questão em sua elaboração parte da questão de como imagens que contêm a qualidade da experiência podem ser criadas. Por isso, o experimentalismo para a autora é exercido como uma maneira de testar e engendrar a linguagem cinematográfica para além dos padrões do cinema hegemônico, como os da Hollywood dos anos 50, feitos simultaneamente a sua filmografia. Podemos analisar como ela expressa o seu conceito em seu filme Meshes of the Afternoon (1943), que tem ações e um espaço-tempo cíclico - que repete e difere -, objetos que se movimentam como se fossem dotados de vida e deslocamentos anti-naturais, formulados com técnicas cinematográficas como movimentos de câmera, que foram realizados com um corpo-câmera tripé que se movimentava em conjunto aos movimentos da personagem que realizava a ação (Deren, 1946). Para aproximarmos a lógica cinematográfica inventiva de Deren do local no qual estamos situados enquanto pesquisadores, analisamos dois filmes experimentais de cineastas latino-americanas contemporâneas que pela nossa análise realizam movimentos semelhantes. É noite na América (2022) foi dirigido, editado e sonorizado por Ana Vaz e nele vemos uma denúncia da relação abusiva do homem com a natureza através da interferência das construções urbanas na vida dos animais que perdem o seu habitat natural, são atropelados e após enjaulados em centros de recuperação e zoológicos. Vaz cria, a partir da técnica de imagem da “noite americana”, um cenário noturno brasileiro em uma torção estética crítica da lógica predatória e cinematográfica humana. Mujeres para la otra danza (2024) foi dirigido por Ximena Quiroz Peters e nele vemos sete mulheres que dançam ao redor do mundo em imagens-fragmentos movimentadas como se fossem colagens em cenários que são paisagens naturais, como as em que Deren criou em Meshes…. Assim como Stengers (2015) vê no fazer científico experimental a possibilidade para a realização de uma metacrítica de métodos científicos estagnados pela cristalização predatória capitalista dos meios de conhecimento, vemos no cinema experimental uma possibilidade de deslocamento de visualidades cinematográficas. Por isso, a pesquisa é interdisciplinar-rizomática (Stenger, 2017), pois se desenvolve a partir de um pensamento que entrelaça o desenvolvimento científico vivificado ao pensamento sobre a imagem. A partir da Teoria de Cineastas podemos pensar a criação cinematográfica como um ato teórico, pois os cineastas para realizarem os seus filmes têm de refletir sobre eles (Aumont, 2008), e como um gesto que remete e atualiza a ontologia do cinema através da inovação formal que os filmes apresentam (Rui Graça, Tulio Baggio e Penafria, 2015). Os filmes analisados são frutos da resistência e da subversão de mulheres latino-americanas. Neles elas criam realidades cinematográficas nas quais os seus corpos realizam, por meio de sua materialidade, visualidades únicas em conjunto ao ambiente que habitam. Com eles, conjecturamos sobre a maneira como vivemos a nossa temporalidade em conjunto à natureza e indagamos como podemos elaborar imagens orgânicas que construam realidades ecológicas, que não excluam o que é cambiante, natural e experiencial em prol de modos de fazer enquadrantes, não refletidos e destrutivos. |
|
| Bibliografia | AUMONT, Jacques. Pode um filme ser um ato de teoria? Revista Educação e Realidade, v.33, n.1, p. 21-34, jan-jun. 2008. |