ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Deslocamentos, identidade e hospitalidade no cinema documental brasileiro |
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| Autor | Giulianna Nogueira Ronna |
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| Resumo Expandido | A presente proposta busca compreender como as noções de deslocamento e exílio configuram-se como articulações narrativas e identitárias no cinema documentário brasileiro, à medida que este revisita o legado histórico da ditadura civil-militar (1964–1985) e seus desdobramentos na sociedade. Diante do atual contexto político e social marcado pelo recrudescimento de discursos autoritários e por ataques às instituições democráticas, o documentário tem se afirmado como um espaço de reinscrição crítica da história. Nesse panorama, identificam-se produções que, ao elaborarem esteticamente as diferentes formas de violência de Estado, a exclusão e o deslocamento forçado — seja ele físico, simbólico ou subjetivo —, reatualizam conflitos que atravessam diferentes tempos históricos, tensionando as fronteiras entre passado e presente; história, memória e identidade. Os alicerces do autoritarismo, forjados ao longo de diferentes períodos, impuseram a povos originários, mulheres, populações periféricas, entre outros grupos marginalizados, uma experiência contínua de deslocamento e exílio, mesmo dentro de seus próprios territórios. Para além do desterro físico, esses grupos foram submetidos ao apagamento simbólico, ao silenciamento político e à negação de pertencimento. Tal cenário evidencia a dificuldade de elaboração coletiva do trauma e a fragilidade do processo democrático, constantemente ameaçado pela repetição do horror (Teles; Quinalha, 2020). Dessa forma, considerando a condição histórica de exclusão e apagamento simbólico a que foram submetidos, determinados grupos vivenciam um deslocamento que os situa como estrangeiros em seus próprios territórios. Tal experiência de desenraizamento aproxima-se da noção de hospitalidade elaborada por Derrida (2003), entendida como a impossibilidade de um acolhimento pleno do outro, uma vez que esse encontro é sempre atravessado por assimetrias, desvios e limites. Essa articulação permite refletir sobre as margens do pertencimento e os impasses da memória e do testemunho diante de traumas históricos. Ao mesmo tempo, ao ser pensado como ruptura das identidades fixas, tal deslocamento introduz uma falta constitutiva (Derrida) que torna possível o surgimento de novas subjetividades políticas (Mouffe, 2015). Nesse sentido, o objetivo deste trabalho consiste em analisar de que modo essas condições são inscritas imagética e discursivamente — na tensão entre imagem e palavra — em filmes como GRIN - Guarda Rural Indígena (Roney Freitas e Isael Maxakali, 2016), Torre das Donzelas (Susanna Lira, 2018) e Retratos de Identificação (Anita Leandro, 2014). Tais obras configuram-se como construções sintomáticas de seu tempo ao viabilizarem a emergência do acontecimento histórico enquanto traços e ressonâncias (Gutfreind, 2009), o que favorece a reelaboração de sentidos historicamente consolidados. O que se percebe nessas produções é como as distintas formas de exílio emergem tanto de modo direto quanto transversal, estruturando narrativas de deslocamentos subjetivos e de fraturas identitárias. Filmes em que a fricção entre imagem e palavra, constitui espaços de confronto com a alteridade e com o estranhamento de si, instaurando vazios, silêncios e desvios que desestabilizam representações hegemônicas e revelam formas alternativas de pertencimento. Simultaneamente, essas obras evocam o paradoxo da hospitalidade derridiana: a abertura sempre inacabada ao outro e os impasses ético-políticos do acolhimento em contextos marcados por violências históricas, apagamentos e disputas de memória. |
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| Bibliografia | DERRIDA, J. Torres de Babel. Tradução de Junia Barreto. Belo Horizonte (MG): UFMG, 1998 |