ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Montagem e Restauro: Produção e Memória no Documentário sobre o 8 de Janeiro |
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| Autor | Michael Abrantes Kerr |
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| Resumo Expandido | Este artigo propõe uma reflexão sobre a prática da montagem e a construção da memória acerca dos atos de 8 de janeiro de 2023, a partir da produção de um documentário que trata da restauração de obras de arte vandalizadas no Palácio do Planalto naquela ocasião. Para a investigação do documentário intitulado “8 de janeiro: memória, restauração e democracia”(2025), realizado por este pesquisador, juntamente com técnicos e alunos do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas, estamos propondo observar a relação entre imagem, política e memória, explorando como a montagem pode operar no retorno do passado através das imagens. O documentário faz parte de um projeto maior, solicitado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o qual coloca o papel do restauro como ato simbólico e material de resistência cultural, social e política. As imagens da vandalização de várias obras, incluindo “Mulatas à Mesa”, de Di Cavalcanti, são discutidas sob a perspectiva da imagem-sintoma, um conceito que remete às marcas deixadas pela violência e ao potencial de leitura histórica através dessas fissuras visuais. A montagem do documentário é entendida como um campo de confronto entre passado e presente. Inspirada na dialética das imagens proposta por Georges Didi-Huberman, a edição busca criar relações que reconstroem o que foi apagado, mas sem anular suas ausências. Dessa forma, questiona-se como uma estrutura documental pode restituir às imagens aquilo que nelas já não está, mas que ainda as atravessa, e de que forma o cinema documental pode construir a memória de atos realizados naquela data, especificamente acerca das ações criminosas sobre as obras de arte. Nesse contexto, a montagem emerge como um modo de pensamento, um campo de experimentação visual e teórica. Nesse sentido, é importante abordarmos alguns conceitos de montagem, como o de Eisenstein (2002), o qual diz que as imagens agem umas sobre as outras por uma atração, e por meio de um choque dialético entre duas imagens, surge uma terceira. Benjamin (1984) também fala sobre as imagens dialéticas e o efeito de choque, uma qualidade atribuída ao cinema, a qual pode ser produzida por meio dos cortes nas imagens, ou seja, na montagem, tendo efeito sobre as formas de ação e percepção. Didi-Huberman (2021) observa a capacidade que a montagem tem em mostrar algo por meio de deslocamentos e recomposições. Segundo ele, para mostrar temos que dispor as diferenças, os choques mútuos, suas confrontações. A partir de Warburg e o conceito de "Nachleben", ou seja, na sobrevivência das imagens (DIDI-HUBERMAN, 2013a), o documentário em análise trabalha com imagens do vandalismo do 8 de janeiro como vestígios da tentativa de golpe, contrapondo-as às imagens das obras sendo restauradas, assim como a diversos depoimentos. A montagem passa a ser compreendida como um campo de tensão entre imagens e palavras, gerando conceitos, dando a ver um pensamento histórico. Por fim, o artigo investiga como a montagem pode representar o acontecimento de forma lacunar, abraçando as ausências, ofertando ao espectador elementos para a construção de significados. Nesse sentido, também se propõe a discutir como o restauro das obras funciona como um ato simbólico de resistência cultural e política, integrando a prática documental à construção de uma narrativa histórica mais ampla. A montagem, então, é explorada como um campo de experimentação onde se cruzam duração, memória, estética e política. |
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| Bibliografia | BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. |