ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Quando a lacuna impulsiona a imagem de arquivo: caminhos para uma prática arquivística no cinema |
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| Autor | Luana Campos Ponchet |
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| Coautor | Greice Schneider |
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| Resumo Expandido | Arquivados em caixas amarelas de revelação da Kodak, separados por dossiês em forma de envelopes de cartas, irrompem inúmeras fitas de negativos revelados em meio a um pequeno arquivo institucional. Localizado no menor estado do país, o Arquivo Central da Universidade Federal de Sergipe conta com mais de 19.000 negativos em seu acervo, contendo a memória visual da UF e do estado. O mecanismo de arquivamento das películas é sintetizado por meio do inventário Acervo Fotográfico do Projeto de Resgate da Memória da UFS formulado em 2022 pelo arquivista Alexandre da Silva Conceição, falecido no mesmo ano. O documento informa apenas o evento que originou as fotografias, resumindo em uma legenda superficial o contexto histórico da imagem. Em alguns casos, ainda é informado o ano, em outros é impossível cravar a temporalidade de captura. Não há informações sobre os fotógrafos ou o nome das pessoas retratadas. A partir deste arquivo anônimo e lacunar em sua essência, foi realizada a pesquisa Contando Histórias com Arquivos Fotográficos, finalizada em 2024, que deu origem ao filme Entretempos, Entremeios, documentário feito a partir das fotos de arquivo que reconstitui e tensiona a história do Centro de Cultura e Arte (CULTART) em Sergipe, vencedor do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana. A partir dessa experiência concreta de pesquisa dos arquivos e montagem do filme, o presente trabalho pretende explorar os caminhos percorridos na feitura de um cinema de arquivo a partir das lacunas deixadas pelas fotografias anônimas provindas de acervos institucionais. O foco, neste trabalho, é discutir como as lacunas e rastros deixados por essas fotografias desempenham um papel propulsor para a métodos de análise e montagem das imagens a partir de sua materialidade e de suas origens para fundamentar a narrativa fílmica documental. A apropriação de imagens preexistentes, aqui, não se limita mais à uma reflexão sobre a memória enquanto passado, sendo prática comum em trabalhos de artistas e pesquisadores contemporâneos como Azoulay, Hartman, Lindeperg, Blank e Machado. Buscamos examinar os gestos de apropriação dos arquivos explorando a natureza dinâmica do tempo da imagem fotográfica (Lissovsky, 2014), ativando as possibilidades de recontextualização e fabulação (Hartman, 2020) a partir dessas imagens. Nesse movimento, a metáfora de “palimpsesto” (Lindeperg, 2013) para contemplar as múltiplas camadas de sentido presentes na reutilização dessas imagens de arquivo é tensionada pela lida com essas ausências e lacunas, reimaginando uma vida própria dessas imagens a partir da própria pesquisa. Pretendemos explorar a potência das lacunas do arquivo e operar os gestos de ressignificação dessas imagens baseados em perspectivas dissidentes. Assumimos aqui, com Farge, a postura cuidadosa diante deste lugar enigmático que “é uma brecha no tecido dos dias, a visão retraída de um fato inesperado” (2022, p.14). O trabalho propõe então um duplo movimento. Em um primeiro momento, a contextualização histórica é realizada a partir da lida com a própria materialidade da imagem, considerando o estado de conservação dessas fotografias e as próprias lacunas enquanto pistas e vetores. Foi necessário confrontar as imagens, lançando mão do cruzamento de outros documentos, para identificar o contexto de feitura das imagens. O segundo momento foi dedicado ao desenvolvimento do seu potencial de ressignificação e montagem, de juntar, como diz Didi-Huberman, restos de coisas sobreviventes, heterogêneas e anacrônicas. O filme é realizado a partir de uma perspectiva da imagem-montagem (2020) como um horizonte metodológico para lidar com esse “imenso e rizomático arquivo de imagens heterogêneas difícil de dominar, de organizar e de entender, precisamente porque seu labirinto é feito de intervalos e lacunas tanto como de coisas observáveis” (2012, p. 211). ENTRETEMPOS, entremeios. Direção L. Campos. Sergipe: Temos Um Ponto, 2024. https://tinyurl.com/2y39t8fy |
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| Bibliografia | AZOULAY, A.A. História potencial: desaprender o imperialismo. Ubu, 2024. |