ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A bruxaria infantil como motriz do rearranjo familiar em A Sombra do Pai, de Gabriela Amaral Almeida |
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| Autor | Rafael Oliveira Carvalho |
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| Resumo Expandido | A figura da bruxaria na sua corporificação feminina compõe um imaginário e uma série de representações, seja na literatura ou no cinema, que enquadra as mulheres em uma situação de poder (sobrenatural e social), mas também de figura assustadora, macabra e perversa. Segundo Carla Italiano e Juliana Gusman (2024), muitas obras ao longo da História elaboraram uma imagem da bruxa em “figurações que que tanto reforçaram perspectivas patriarcais e colonizadoras quanto defenderam a autonomia de corpos e desejos” (p. 41). As autoras resgatam proposição da pesquisadora Barbara Creed para quem a bruxa representa “o monstro feminino por excelência” (p. 44) Propormos uma leitura sobre essa figura arquetípica a partir da personagem infantil protagonista do filme A Sombra do Pai (2018), dirigido por Gabriela Amaral Almeida. Dalva é uma criança que possui proximidade e atração por temas ligados à bruxaria, além de apresentar capacidades sobrenaturais afloradas. Ela acabou de perder a mãe e vive sozinha com o pai que, consumido pelo luto e pela incapacidade de lidar com a tarefa de criar sozinho a filha e zelar pela casa, sucumbe a um estado de letargia que o transforma em uma espécie de morto-vivo operário. Isso faz com que a pequena Dalva assuma uma postura de maior responsabilidade dentro de casa, dentro das possibilidades de uma criança e, mais que isso, passe a nutrir não apenas o desejo do retorno da mãe ao seio familiar, como agencia modos ritualísticos e mágicos de trazê-la de volta à vida. Laura Cánepa (2025) observa que a figura paterna do filme está associada a uma representação do masculino como provedor (financeiro) da família e não como cuidador, tarefa relegada às mulheres – e mesmo assim dificilmente reconhecida como engrenagem dentro da lógica capitalista porque, mesmo não remunerado, é um trabalho que sustenta e subsidia a força de trabalho representada pelos homens (FEDERICI, 2017). Quando ao pai viúvo do filme homem é atribuído a responsabilidade de cuidar da filha, ele se desestabiliza e sucumbe, psicológica e fisicamente, entrando em um processo de zumbificação. É a partir das capacidades sobrenaturais e mágicas de Dalva que passamos a entendê-la como uma versão possível de uma bruxa e/ou feiticeira, na interface com as crendices populares alimentadas por sua tia. No entanto, mais do que enquadrá-la no arquétipo feminino da bruxaria e mesmo redimensioná-lo na contemporaneidade, nos interessa entender como essa posição assumida pela criança agencia um desejo de rearranjo familiar, ainda que pela aceitação do macabro. Dedicada ao campo do horror, do fantástico e do insólito, a obra de Gabriela Amaral Almeida trafega pelo cinema de gênero de modo muito direto e referencial, no que pode ser enquadrado no que Cánepa (2016) chama de horror militante, ao se pensar a produção audiovisual brasileira das últimas décadas feito por cineastas que cultuam um cinema de gênero que fez parte do seu reportório cinéfilo, articulando-o e atualizando-o nas suas realizações contemporâneas. A própria diretora costuma afirmar que, assim como Dalva, ela também foi uma criança que passava as noites assistindo a filmes de terror na televisão, encantada pelas figuras monstruosas e sanguinárias. Assim como acontecia em um dos curtas mais premiados da cineasta, Estátua! (2014), uma garotinha também aplicava seus dons sobre adultos. Porém, enquanto no curta conhecemos – e tememos – a criança a partir do olhar da babá grávida que se sente acuada pelo comportamento “estranho” da menina, em A Sombra do Pai é a partir do olhar da criança que enxergamos a desestruturação familiar. De qualquer forma, são personagens infantis que agenciam poderes sobrenaturais, seguindo uma tradição de crianças com dons mágicos, outro arquétipo muito visitado no cinema de horror (TELES, 2019). |
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| Bibliografia | CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas, SP: Papirus, 1999. |